sexta-feira, 22 de maio de 2015

UVAS VINIFERAS




Uvas Viníferas para Processamento em Regiões de Clima Temperado

Clima

O clima possui forte influência sobre a videira, sendo importante na definição das potencialidades das regiões para a cultura. Ele interage com os demais componentes do meio natural, em particular com o solo, assim como com a cultivar e com as técnicas de cultivo da videira.
Pode-se afirmar que grande parte da diversidade encontrada nos produtos vitivinícolas, seja quanto aos tipos de produtos, seja no que diz respeito aos aspectos qualitativos e de tipicidade, deve-se ao efeito do clima das regiões vitícolas. Devem-se considerar três conceitos para diferenciar escalas climáticas de interesse da viticultura: a) macroclima, ou clima regional, que corresponde ao clima médio ocorrente num território relativamente vasto, exigindo, para sua caracterização, de dados de um conjunto de postos meteorológicos; em zonas com relevo acentuado os dados macroclimáticos possuem um valor apenas relativo, especialmente no que se refere à viticultura. Inversamente, um mesmo macroclima poderá englobar áreas de planície muito extensas. b) mesoclima, ou clima local, que corresponde a uma situação particular do macroclima. Normalmente é possível caracterizar um mesoclima através dos dados de uma estação meteorológica, permitindo avaliar as possibilidades da cultura da uva. A superfície abrangida por um mesoclima pode ser muito variável mas, nas regiões vitícolas, trata-se normalmente de áreas relativamente pequenas podendo fazer referência a situações bastante particulares do ponto de vista de exposição, declividade ou altitude, por exemplo. Muitas vezes o termo topoclima é utilizado para designar um mesoclima onde a orografia constitui um dos critérios principais de identificação, como por exemplo o clima de um vale ou de uma encosta de montanha. c) microclima, que corresponde às condições climáticas de uma superfície realmente pequena. Pode-se considerar dois tipos de microclima (Carbonneau, 1984): microclima natural - que corresponde a superfícies da ordem de 10 m a 100 m; e, microclima da planta - o qual é caracterizado por variáveis climáticas medidas por aparelhos instalados na própria videira. O termo genérico de bioclima é utilizado para essa escala que visa o estudo do meio natural e das técnicas de cultivo.
A influência do clima, considerando os principais elementos meteorológicos e fatores geográficos do clima sobre a videira, é descrita a seguir, em particular nas escalas macro e mesoclimáticas.
Elementos Meteorológicos do Clima Temperatura
A temperatura do ar apresenta diferentes efeitos sobre a videira, variáveis em função das diferentes fases do ciclo vegetativo ou de repouso da planta.
Temperaturas de inverno: a videira é bastante resistente às baixas temperaturas na estação do inverno, quando se encontra em período de repouso vegetativo. Ela pode suportar, sem que haja a morte da planta, temperaturas mínimas de até -10,0°C a -20,0°C no caso da espécie Vitis vinifera L. O frio invernal é importante para a quebra de dormência das gemas, no sentido de assegurar uma brotação adequada para a videira. Em condições de pouco frio invernal, que podem ocorrer nos climas subtropicais, torna-se necessário a adoção de tratamentos e práticas culturais adequados visando garantir uma porcentagem satisfatória de brotação das videiras.
Temperaturas de primavera: de forma genérica considera-se a temperatura de 10°C como mínima para que possa haver desenvolvimento vegetativo; do final do inverno ao início da primavera, quando ocorre a brotação das videiras, temperaturas baixas podem ocasionar geadas tardias que causam a destruição dos órgãos herbáceos da planta. Assim, regiões com elevado risco de geadas durante o período vegetativo da videira devem ser evitadas. O plantio de cultivares de brotação tardia em locais com riscos baixos a moderados de geadas é prática corrente na viticultura. No período de floração da videira, temperaturas iguais ou superiores a 18°C são favoráveis, sobretudo se associadas a dias com bastante insolação e pouca umidade. Temperaturas de verão: a maior atividade fotossintética é obtida na faixa de temperaturas que vai de 20°C a 25°C, sendo que temperaturas a partir de 35 °C são excessivas. Na estação de verão, a qual via-de-regra coincide com o período de maturação das uvas, temperaturas diurnas amenas - possibilitando um período de maturação mais lento são favoráveis à qualidade. Igualmente a ocorrência de noites relativamente frias favorece o acumulo de polifenóis, especialmente as antocianas nas cultivares tintas e a intensidade dos aromas nas cultivares brancas. Condições térmicas muito quentes podem resultar na obtenção de uvas com maiores teores de açúcares, porém com baixa acidez.
Temperaturas de outono: elas afetam o comprimento do ciclo vegetativo da videira, que é importante para a maturação dos ramos e o acúmulo deRESERVAS  pela planta. A ocorrência de geadas outonais (precoces) acelera a queda das folhas e o fim do ciclo vegetativo da planta.
Insolação e radiação solar
A videira é uma planta exigente em luz, requerendo elevada insolação durante o período vegetativo, fator importante no processo da fotossíntese, bem como na definição da composição química da uva. A radiação solar recebida pela planta em determinado local é função da latitude, do período do ano, da nebulosidade, da topografia e da altitude, dentre outros. Normalmente uma maior insolação está correlacionada a um menor número de dias de chuva, o que é favorável, já que as condições brasileiras são de alta umidade no sul do Brasil. Os anos de maior insolação produzem uvas com bons teores de açúcares e com acidez adequada. De uma maneira geral, elevada insolação, quando aliada ao excesso de calor, é prejudicial à qualidade dos produtos para a agroindústria, resultando em mostos pouco equilibrados, com baixa acidez.
Pluviometria
A precipitação pluviométrica é um dos elementos mais importantes do clima em viticultura. A videira é uma cultura bastante resistente à seca. Existem regiões que produzem, sem irrigação, com precipitação pluviométrica de apenas 250 m a 350 m no período que vai da brotação até a maturação das uvas. Existem regiões onde ela subsiste em condições ainda mais secas. A demanda hídrica da videira varia em função das diferentes fases do ciclo vegetativo. Para a determinação de suas necessidades hídricas deve-se considerar, também, o tipo de solo e a cobertura do mesmo (vegetado ou não vegetado).
Para a videira interfere não somente a quantidade de chuvas, mas sua intensidade e o número de dias ou de horas em que ela ocorre. Ainda, deve-se ter em conta eventuais perdas por escorrimento superficial ou por percolação.
As chuvas de inverno têm pouca influência sobre a videira, mas são importantes para as reservas hídricas do solo, necessárias para o início do ciclo vegetativo da videira. Durante a primavera, as chuvas são importantes para o desenvolvimento da planta, porém, quando em excesso, favorecem a ocorrência de algumas doenças fúngicas da parte aérea.
De uma maneira geral, observa-se que nas condições sul-brasileiras médias, as chuvas de verão ocorrentes caracterizam um clima de ausência de seca para a videira. Elas tendem a ser excedentárias. Em períodos chuvosos durante a fase de maturação das uvas, verifica-se com freqüência a colheita antecipada das uvas, em relação ao ponto ótimo de colheita. Essa prática adotada pelo viticultor para evitar perdas de colheita causadas por podridões do cacho impõe limites à qualidade das uvas destinadas à agroindústria.
Após a colheita das uvas, a importância das chuvas diminui, podendo resultar em crescimento da planta e na ocorrência de doenças fúngicas da parte aérea.
Cabe destacar que a ocorrência de granizo é um fenômeno prejudicial à viticultura, onde os maiores danos são causados durante o período do ciclo vegetativo que vai da brotação à colheita das uvas.
Umidade relativa do ar
A umidade relativa do ar é importante para a viticultura. Climas mais áridos possuem menor umidade relativa do ar e, climas mais úmidos, como o encontrado nas condições sul-brasileiras, apresentam umidade mais elevada. Tais condições são favoráveis à ocorrência de certas doenças fúngicas. Estimulam também o desenvolvimento vegetativo da videira.
Ventos
As correntes de ar que trazem massas de ar com diferentes características repercutem sobre as condições meteorológicas, com implicações sobre a temperatura e a umidade, bem como sobre a evapotranspiração do vinhedo. Ventos fortes podem causar danos à vegetação, com a quebra dos ramos. Na floração uma brisa ligeira é favorável à disseminação do pólen. Além dos elemento meteorológicos referidos é importante salientar a importância da reserva hídrica do solo. Ela é função da capacidade de retenção de água do solo, do aporte de água pela chuva e irrigação, das perdas por escorrimento superficial e por percolação, e da evapotranspiração do vinhedo, que inclui a transpiração da planta e a evaporação do solo. As condições de disponibilidade hídrica do solo para a videira, nos diferentes estádios da planta afetam o desenvolvimento e o vigor dos ramos, influenciando a qualidade da uva destinada à agroindustrialização.
Fatores geográficos do clima
Latitude: a latitude implica num efeito sobre a temperatura do ar, a qual diminui a partir do Equador à medida em que aumenta a latitude em direção aos
Pólos. A latitude é também determinante no fotoperíodo e na radiação solar total recebida nas diferentes estações do ano.
No Brasil, a viticultura destinada à agroindústria, é encontrada desde os 8°
(Vale do Submédio São Francisco) até os 32° de latitude Sul (Serra do Sudeste no Estado do Rio Grande do Sul). Está, portanto, localizada em latitudes baixas a médias, situação bastante diversa da viticultura desenvolvida nas latitudes mais elevadas das regiões setentrionais da Europa e da América do Norte, onde a viticultura chega até os 52º de latitude Norte, e onde o efeito do fotoperíodo maior é decisivo para viabilizar o cultivo da videira.
Altitude: o efeito mais importante da altitude para a viticultura é o térmico, já que 100 metros de elevação representam diminuição ao redor de 0,6°C na temperatura média do ar. Alguns países quentes buscam obter condições térmicas mais favoráveis à viticultura em zonas de maior altitude, compensando em certa medida o efeito latitude. No Brasil, onde as condições térmicas tendem a ser elevadas, a busca de áreas de altitude é observada nas principais regiões de produção, visando condições de produção menos quentes e a valorização da qualidade dos produtos na viticultura clássica de uma colheita por ano. São comuns altitudes superiores a 600 m no Rio Grande do Sul, podendo chegar a mais de 1.200 m em São Joaquim, Santa
Catarina.
Exposição e declividade
As condições de relevo possibilitam a seleção de áreas para a viticultura com um mesoclima particular. Para a viticultura sul-brasileira é o caso das encostas com exposição Norte. Normalmente, as encostas são menos férteis que as condições de fundo dos vales e com maior insolação e drenagem, possibilitam colheitas menos abundantes, porém geralmente com melhor qualidade.
As condições de declividade do terreno irão definir, juntamente com a exposição, a incidência de maior ou menor insolação. Situações de alta declividade do terreno não são recomendadas, seja pelos riscos de erosão, seja pela dificuldade de mecanização.
Maritimidade
Pela sua condição oriental no continente americano, o Brasil sofre forte influência oceânica, com implicações sobre o clima das regiões vitivinícolas. Embora existam condições onde a posição geográfica apresenta alguma continentalidade - como a região da Campanha no Estado do Rio Grande do Sul, o efeito sobre as amplitudes térmicas anuais não chega a ser elevado, como ocorre nos climas de tipo continental.
O clima das regiões vitivinícolas brasileiras produtoras de vinhos finos
A viticultura mundial destinada à agroindústria está sobretudo concentrada entre 30º e 50º de latitude Norte e entre 30º e 45º de latitude Sul. Os principais climas ocorrentes são os climas de tipo temperado, de tipo mediterrâneo e climas com diferentes níveis de aridez. No Brasil os tipos de clima ocorrentes nas regiões vitivinícolas produtoras de vinhos finos com uma colheita anual são de tipo temperado e subtropical.
As Figuras 1 e 2 exemplificam condições do regime térmico, de chuvas e de insolação em regiões vitivinícolas produtoras de vinhos finos nos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, respectivamente, ambos localizados no Sul do
Brasil. Nelas observa-se que o regime térmico é bastante diverso em função da região, sendo que as temperaturas mais elevadas encontram-se na Campanha (Figura 1) e as mais amenas em São Joaquim (Figura 2). A insolação também é bastante variável, sendo maior nas regiões da metade sul do Rio Grande do Sul. A distribuição das chuvas ocorre de forma bastante homogênea ao longo do ano nas regiões da Serra Gaúcha, Alto Vale do Rio do Peixe e São Joaquim, com valores médios sempre superiores a 100 ou 120 m mensais. Já na Campanha e na Serra do Sudeste, em alguns meses as chuvas são um pouco inferiores a 100 m mensais em média. Registra-se o fato de as figuras 1 e 2 apresentam apenas uma condição climática para cada região, a qual seria mais diversificada caso fosse analisada a variabilidade do conjunto geográfico compreendido pela região.
Estas situações caracterizam condições macroclimáticas diferenciadas, com importantes reflexos sobre o comportamento fisiológico da videira e sobre o potencial qualitativo das uvas produzidas em cada região. Tais características indicam também que cada região encontrará melhores condições para a produção de certas variedades, bem como tipos de vinhos. A tabela 1 apresenta a data média de brotação e da colheita, bem como o número médio de dias e a soma térmica da brotação à colheita de algumas cultivares de videiras da Serra Gaúcha. A brotação inicia na 3ª década de agosto para as cultivares precoces e se estende até o final de setembro para as cultivares tardias. A data da colheita concentra-se no período que vai da 3ª década de janeiro até a 1ª década de março, respectivamente para as cultivares de maturação precoce e tardia. Verifica-se que cada variedade necessita de uma soma térmica distinta para atingir a maturação das uvas. Tais valores, que variam entre 1.200 e 1.600 graus-dia para as diferentes cultivares listadas na tabela 1, podem ser utilizados para estimar a data de colheita em outras regiões. Observa-se, no entanto, que esta estimativa pode ser apenas aproximada já que em distintas regiões ocorrem interações entre o clima, a variedade, o solo e as condições de manejo.
Em cada região produtora, as variáveis climáticas apresentam comportamento diferenciado ao longo do ano, incluindo as temperaturas, a insolação, a precipitação pluviométrica e os índices climáticos vitícolas (tabela 2). As regiões com maior índice térmico eficaz apresentam uma data de colheita mais precoce que as de menor índice. A tabela 2 apresenta, ainda, a classificação das regiões, para os mesoclimas apresentados, segundo o "Sistema de Classificação Climática Multicritério Geovitícola", demonstrando o enquadramento das regiões em distintas classes de clima em relação ao potencial heliotérmico e regime hídrico do ciclo da videira e à condição nictotérmica afeta à maturação das uvas.
O clima na tipicidade dos vinhos brasileiros
Os fatores de qualidade dos vinhos e outros produtos vitivinícolas nas diferentes regiões é função do clima, do solo, da cultivar, das técnicas de cultivo e dos sistemas de processamento empregados. As características climáticas da vitivinicultura brasileira são bastante particulares e distintas daquelas encontradas na maioria dos países vitivinícolas. Tal situação confere aos produtos um conjunto de características e uma tipicidade própria. Essa tipicidade deve-se em grande parte ao efeito clima. Resulta, igualmente, da ampla gama de cultivares utilizadas. Os vinhos produzidos de uvas européias apresentam tipicidade que varia de região para região nas condições brasileiras.
Tabela 1. Data média de brotação (Db), data média da colheita (Dc), número de dias e soma térmica média da brotação à colheita de 1 cultivares brancas e tintas destinadas à elaboração de vinhos finos na Serra Gaúcha, RS (dados fenológicos do Banco Ativo de Germoplasma da Uva e dados meteorológicos da Estação Agroclimática da Embrapa
Uva e Vinho, Bento Gonçalves, RS).
Cultivar Branca Tinta
Data média de brotação
Data média de colheita (Dc)
Número de dias médio

da Db e Dc

Soma Térmica média da Db à



Tabela 2. Dados climáticos médios, índices bioclimáticos médios e respectivas coordenadas geográficas das 5 regiões produtoras de vinhos finos do Sul do Brasil: Serra Gaúcha, Serra do Sudeste e Campanha no Rio Grande do Sul, São Joaquim e Alto
Vale do Rio do Peixe em Santa Catarina.
Estado/Região Vitivinícola Rio Grande do Sul Santa Catarina
Coordenadas geográficas, dados climáticos, índices bioclimáticos e classificação pelo
"Sistema CCM Geovitícola"
Unidade de medida
Serra Gaúcha
Serra do
Sudeste Campanha São Joaquim
Alto Vale do Rio do Peixe
Coordenadas geográficas (referência para os dados climáticos) Latitude Latitude S 29°10' 30°33' 30°53' 28° 18' 27°00'

Dados climáticos             

média do ar - média anual
Temperatura

Temperatura

Precipitação pluviométrica -


Índices bioclimáticos (do período ativo de vegetação: 01.09 a 30.04)
Temperatura média do ar -

Precipitação


Índice térmico

Sistema CCM Geovitícola1
Índice heliotérmico de
Huglin (IH)
- Temperado quente
Temperado quente Quente Frio Quente
Índice de frio noturno (IF)
(Classe / Subclasse)
De noites temperadas / C
De noites temperadas / B
De noites temperadas / B
De noites frias
De noites temperadas / B
Índice de seca (IS) m Úmido Úmido Subúmido Úmido Úmido
1 - Índices climáticos vitícolas do Sistema de Classificação Climática Multicritério Geovitícola, classes do clima e intervalos de classe (Tonietto e Carbonneau, 2000):

(>3000). IF - De noites muito frias (IF < 12°C); De noites frias (>12°C IF < 14°C); De noites

IS - Úmido (IS >150mm); Subúmido (< 150mm IS > 50mm); De seca moderada ( < 50mm IS > -100mm); De seca forte (< -100mm IS > -200mm); De seca muito forte (IS < -200mm).

Fig. 1.Distribuição anual da temperatura do ar - média, máxima e mínima (ºC), precipitação pluviométrica (m) e insolação (h) de regiões vitivinícolas produtoras de uvas para vinhos finos no estado do Rio Grande do Sul: Serra Gaúcha, Serra do Sudeste e Campanha. (Elaboração: Jorge Tonietto e Francisco Mandelli)

Fig. 2. Distribuição anual da temperatura do ar - média, máxima e mínima (ºC), precipitação pluviométrica (m) e insolação (h) de regiões vitivinícolas produtoras de uvas para vinhos finos no estado de Santa Catarina: Alto Vale do Rio do Peixe e São Joaquim. (Elaboração: Jorge Tonietto e Francisco Mandelli)
Preparo do Solo, Calagem e Adubação Escolha da área
A videira se adapta em ampla variedades de solos, dá-se preferência a solos com textura franca e bem drenados, com pH variando de 5,0 a 6,0 e com teor de matéria orgânica com pelo menos 20 g dm-3.
Topografia
A topografia influencia na drenagem das águas e na temperatura ambiente. Solos planos e argilosos tendem a ter menor capacidade de drenagem das águas, enquanto que os solos declivosos tendem a não apresentar problemas com encharcamento. A exposição do vinhedo para o norte permite que as plantas recebam os raios solares por mais tempo e ainda ficam protegidas dos ventos frios do sul.
Preparo da área
O preparo da área tem por finalidade assegurar que as mudas de videira sejam plantadas em condições que possam expressar todo o seu potencial produtivo. Ele consta das operações de roçagem, destocamento, lavração, gradagem, abertura das covas ou sulcamento.
Roçagem - Consiste na eliminação da vegetação existente. Esta prática pode ser executada manualmente ou com tratores. Em ambos os casos, não se aconselha a queima da vegetação, apenas retiram-se os arbustos e galhos maiores, sendo o restante incorporado ao solo através de uma ou mais lavrações.
Destocamento - Caso a área seja coberta por mata ou outra vegetação maior, com sistema radicular mais desenvolvido, aconselha-se executar o destocamento após a roçagem da vegetação. Esta prática tem por objetivo a retirada dos tocos maiores para facilitar os demais trabalhos. Ela é feita com implementos mais pesados tracionados por tratores e eventualmente por animais.
Lavração - Esta prática visa a mobilização total do solo. A profundidade em que esta mobilização é feita depende do tipo de solo e dos trabalhos nele executados anteriormente. É mais comum fazer a lavração à profundidade de 20 a 25 cm.
Gradagem - Esta prática visa nivelar o terreno que foi revolvido. Este nivelamento permite a distribuição mais uniforme dos adubos e facilita a demarcação das covas para o plantio.
Preparo das covas ou sulcamento - As covas são preparadas após o nivelamento do solo, tendo as dimensões de 50 x 50 x 50 cm. Quando a topografia permite, no lugar das covas, faz-se a abertura de sulcos com profundidade de 20 a 25 cm.
Calagem

Tem como finalidade eliminar prováveis efeitos tóxicos dos elementos que podem ser prejudicial às plantas, tais como alumínio e manganês, e corrigir os teores de cálcio e magnésio do solo. Para a videira o pH do solo deve estar próximo de 6,0. No RS e SC utiliza-se o índice SMP como indicador da necessidade de calagem.
Na tabela 1 se observa a quantidade de calcário a ser adicionada em função do índice SMP. Na implantação do vinhedo, para os solos da região da Serra Gaúcha, recomenda- se aplicar, no máximo, 3,5 t ha-1, sendo o restante parcelado anualmente. Deve-se dar preferências para o uso do calcário dolomítico (com magnésio), sendo que o mesmo deve ser aplicado ao solo, pelo menos, 3 meses antes do plantio, distribuindo-se em toda área. Só aplique calcário quando a análise de solo indicar necessidade e/ou os teores de cálcio e magnésio forem menores que 4,0 e 2,0 cmolc, respectivamente. Normalmente após três a quatro anos após a implantação do vinhedo há necessidade de fazer uma nova calagem. O modo de aplicação do calcário é bastante controverso, pois em regiões de ocorrência de fusariose, o corte do sistema radicular pode aumentar a mortalidade de plantas infectadas por fusarium, e, em vinhedos sob Litossolos, há afloramento de rochas. Nas duas situações é proibitivo a prática da incorporação do calcário, sendo então necessário a aplicação do calcário na superfície sem a necessidade de incorporação.
Adubação
Exigências nutricionais e sintomas de deficiência
Fósforo - Solos brasileiros são deficientes em fósforo, com teores médios em torno de 1,0 mg kg-1 (Mehlich 1), que torna necessário utilização de adubos químicos para suprir a deficiência. Os sintomas de deficiência de fósforo ocorrem em folhas maduras, onde é observado redução do tamanho, tornam-se amareladas e ainda podem apresentar limbo com manchas avermelhadas. A concentração normal de fósforo nas folhas da videira varia de 0,15 a 0,25
%, sendo que a planta absorve cerca de 1,4 kg de P2O5 para produzir 1000 kg de frutos. Apesar dos solos brasileiros serem naturalmente deficientes em fósforo, não se tem observado sintomas de deficiência em plantas. Potássio - Na grande maioria dos solos brasileiros o concentração de K é considerada baixa, no entanto, os solos da região da Serra Gaúcha apresentam teores de médio a elevado.
Por ser um elemento bastante móvel no interior das plantas, os sintomas de deficiência de potássio ocorrem em folhas mais velhas. Nas variedades brancas os sintomas iniciais se caracterizam por amarelecimento nas proximidades das bordas foliares, com o agravamento da deficiência as bordas ficam necrosadas.
Nas variedades tintas, as folhas tornam-se avermelhadas e também mostram o necrosamento das bordas. A concentração normal de potássio nas folhas da videira varia de 1,50 a 2,50
%, sendo que a planta absorve cerca de 6 kg de K2O para produzir 1000 kg de frutos. Apesar dos solos brasileiros serem naturalmente deficientes em potássio, como no fósforo, também não é comum sintomas de deficiência em plantas. O uso indiscriminado de fertilizantes potássicos aumenta a concentração desse elemento no mosto, isso pode acarretar problemas enológicos.
Nitrogênio - O teor de matéria orgânica é o indicador de disponibilidade de N no solo mais utilizado, mas este não tem sido muito eficaz na predição do comportamento das plantas, o que tem causado sérios problemas na viticultura, pois tanto o excesso quanto a deficiência de nitrogênio afeta a produtividade e a qualidade dos frutos.
Os sintomas de deficiência de nitrogênio se caracterizam pela redução no vigor das plantas e pela clorose (amarelecimento) no limbo das folhas maduras e velhas. Em algumas variedades tintas as folhas e, principalmente, os pecíolos podem apresentar coloração avermelhada. A concentração normal de N nas folhas da videira varia de 1,60 a 2,40 %, sendo que a planta absorve cerca de 2 kg de N para produzir 1000 kg de frutos. Apesar dos solos brasileiros serem naturalmente deficientes em nitrogênio, freqüentemente observa-se tanto a falta quanto o excesso de N nos parreirais. Isto indica que os produtores ainda não têm consenso no uso de nitrogênio, principalmente porque há uma relação inversa entre excesso de vigor das plantas e produtividade e/ou qualidade dos frutos, o que leva os produtores a temer uma aplicação excessiva de fertilizantes nitrogenados.
Cálcio - O cálcio é um elemento pouco móvel na planta, por isso os sintomas de deficiência aparecem nas folhas jovens. Essas folhas normalmente são menores do que as normais, com a superfície entre as nervuras cloróticas, com pintas necróticas e tendência a se encurvarem para baixo. Os teores de cálcio considerados normais para a videira varia de 1,6 a 2,4 % , sendo que as plantas retiram cerca de 6 kg de CaO para produzir 1000 kg de frutos.
Magnésio - Apesar dos teores de Mg2+ da grande maioria dos solos brasileiros serem baixos, ele não tem sido problema sério para a videira, pois, como para o cálcio, a utilização de calcário dolomítico para aumentar o pH do solo também aumenta o teor de Mg.
O magnésio é um elemento móvel na planta, por isso os sintomas de deficiência aparecem nas folhas maduras. Essas folhas apresentam a superfície entre as nervuras cloróticas, que com o agravamento da deficiência vão ficando amareladas, no entanto as nervuras permanecem verdes. Tem-se observado um distúrbio fisiológico chamado dessecamento da ráquis, sendo sua ocorrência mais freqüente em anos em que o período de maturação dos frutos é bastante chuvoso e o solo apresenta-se com alto teor de potássio e baixo de magnésio. Os teores de magnésio considerados normais para a videira varia de 0,25 a 0,50 % , sendo que as plantas retiram cerca de 1 kg de MgO para produzir 1000 kg de frutos.
Boro - A grande maioria dos solos do Brasil, cultivados com videira, possuem baixo teor de boro. No RS, freqüentemente tem-se observado sintomas de deficiência de B, sendo que os problemas normalmente aparecem em solos cujo teor é menor do que 0,6 mg dm-3.
A mobilidade do boro nas plantas ainda é muito discutida, principalmente porque os sintomas de deficiência aparecem nas folhas e ramos novos. A característica principal é a redução no tamanho das folhas e encurtamento dos estrenós. Os teores de boro considerados normais para a videira varia de 15 a 2 mg dm-3, sendo que as plantas retiram cerca de 10 g de B para produzir 1000 kg de frutos.
Formas de Aplicação de Adubos e Corretivos
Existem três tipos fundamentais de adubação: a de correção, efetuada antes do plantio, a de plantio ou crescimento, realizada na ocasião do plantio do porta-enxerto ou da muda até 2 a 3 anos, e a de manutenção, realizada durante a vida produtiva da planta. A primeira é feita para corrigir a fertilidade do solo para padrões de fertilidade preestabelecido, a segunda é feita para permitir o crescimento inicial das plantas, a terceira é para repor os elementos absorvidos pela planta durante o ano.
Adubação de Correção - Como o nome já diz, é feita para corrigir possíveis carências nutricionais. Nela procura-se corrigir os teores de fósforo, potássio e do micronutriente boro.
Os indicadores da disponibilidade de K e P para os solos do RS é o Mehlich 1, enquanto que para boro é a "Água Quente". A quantidade de nutriente a ser aplicada baseia-se em análise de solo e segue-se a tabela 2. Os fertilizantes devem ser aplicados 10 dias antes do plantio e devem ser distribuídos em toda área.
As fontes utilizadas para fósforo são os superfosfatos, enquanto que para o potássio recomenda-se o uso do cloreto de potássio ou sulfato de potássio. Em condições de pH menor que 6,0 há possibilidade de utilização de fosfatos naturais, mas deve-se comparar custo dessa aplicação com a aplicação de um fosfato mais solúvel. Para o boro recomenda-se a utilização de bórax, ácido bórico e ulexita.
Adubação de Plantio ou Crescimento - Esta adubação tem finalidade fornecer nitrogênio às plantas durante os dois a três primeiros anos após a implantação.
Utiliza-se esterco e/ou fertilizante químico à base de nitrogênio. A quantidade de nitrogênio a ser aplicada está relacionada com o teor de matéria orgânica do solo e segue-se a tabela 3. A fonte de N a ser utilizada deve ser aquela mais fácil de ser encontrada na região. Quando for utilizado uréia deve-se tomar o cuidado para evitar perdas por volatilização, assim o solo deve estar úmido e/ou incorporar o fertilizante ao solo.
Em solos com menos de 25 g kg-1 de matéria orgânica recomenda-se a aplicação de esterco de frango na ocasião do plantio, na dose 15 t ha-1, que deve ser colocado no fundo das covas das plantas e bem misturado com o solo.
Adubação de manutenção - Tem a finalidade de repor os nutrientes que são exportados na forma de frutos. A recomendação para nitrogênio, fósforo e potássio é feita na expectativa da produtividade a ser alcançada e se utiliza três classes de produtividade que são: < 15, 15 a 25 e > 25 t ha-1, as doses recomendadas se encontram nas tabelas 4, 5 e 6 e as épocas de aplicações estão na tabela 7. O Boro é o micronutriente que mais comumente se apresenta em concentrações abaixo do normal nas plantas da videira, assim, quando necessário, faz-se adubações de correção nas doses recomendadas pela tabela 8.
Manejo da Cobertura do Solo
Durante os dois primeiros anos de cultivo da videira a área poder ser cultivada com uma cultura anual nas entrelinhas da videira, esta cultura intercalar deverá permitir a cobertura do solo enquanto a videira cresce. A partir do 3° ano do plantio (2° ano após a enxertia) não é mais recomendável a cultura intercalar. Contudo, a utilização da cobertura verde do solo do vinhedo, com gramíneas e/ou leguminosas de outonoinverno, pode ser útil ao solo e à videira. Entre vários benefícios, esta prática auxilia o controle de ervas daninhas, mantém ou aumenta o teor de matéria orgânica do solo e diminui o estresse hídrico nas primaveras e verões secos. Para atingir esses objetivos sugere-se a seguinte sistemática:
março/abril - fazer a análise do solo e realizar as correções da acidez e fertilidade do solo necessárias para a videira e a cultura verde de cobertura do solo. Somam-se as quantidades recomendadas dos fertilizantes para as duas culturas e a incorporação deve ser feita seguindo o seguinte esquema: calagem (se necessária) - adubação orgânica e/ou química - semeadura da cultura para a cobertura verde.
Roçada ou dessecamento - a época para fazer a roçada ou dessecamento da cobertura verde varia de ano para ano. O produtor de deixar as plantas vegetando durante o maior tempo possível, mas tendo cuidado com a competição entre as plantas de cobertura e a videira. Na região da Serra Gaúcha é tecnicamente possível manter o solo do pomar coberto até outubro. A roçada ou dessecamento é feita com roçadeira ou herbicida sistêmico (glifosato ou similar).
Para a cobertura verde podem ser usadas várias espécies como: aveia preta, ervilhaca, azevém, nabo forrageiro, trevo, tremoço, entre outras. Também, podese fazer uma combinação de uma leguminosa com uma gramínea. A relva expontânea (natural) pode ser deixada como cobertura verde do solo, roçando quando atingir a altura de 30 cm, aproximadamente.
Tabela 1. Recomendação da calagem para solos do RS e SC
Índice SMP Calcário a adicionar
(Mg ha-1) Índice SMP Calcário a adicionar (Mg ha-1)
Fonte: SBCS-NRS / Comissão de Fertilidade do Solo RS/SC
Tabela 2. Adubação de correção
P Mehlich (mg kg-1) K trocável B Água Quente


Tabela 3. Adubação nitrogenada de plantio ou crescimento
Matéria orgânica (g kg-1
Dose de nitrogênio (kg ha-1
Tabela 4. Doses de fertilizante fosfatado a ser utilizado na adubação de manutenção conforme análise de tecido.
Teores de P nas Folhas Completas / Pecíolos
Classe de Interpretação
Dose de P2O5 (Kg/Ha)
Deficiente/ Abaixo do normal 40-80 Normal 0-40 Excesso/ Acima do normal 0
Tabela 5. Doses de fertilizante nitrogenado a ser utilizado na adubação de manutenção conforme análise de tecido.
Teores de P nas Folhas Completas / Pecíolos Classe de Interpretação
Produção Esperada (t ha-1)
Dose de N (kg ha-1)
Tabela 6. Doses de fertilizante potássico a ser utilizado na adubação de manutenção conforme análise de tecido.
Teores de P nas Folhas Completas / Pecíolos Classe de Interpretação

Produção Esperada (t ha-1)
Dose de N (kg ha-1)
Tabela 7. Época de aplicação de fertilizantes na videira (% da dose recomendada) destinada a produção de vinho.
Época Dias Nitrogênio Fósforo (P2O5)
Potássio

10 dias antes da poda - - 75 60
10 dias após início da brotação 45 50 25 40
40 dias após início da brotação 75 25 - -
70 dias após início da brotação 105 25 - -
Tabela 8. Adubação de manutenção baseada na concentração de boro em pecíolos e folhas completas de videira.
Material Faixa de interpretação Quantidade de B a aplicar (kg ha-1)
Insuficiente 9,7 Abaixo do normal 7,8 Normal 0
Acima do normal 0 Pecíolos
Excessivo 0 Abaixo do normal 9,7
Normal 0 Folhas inteiras Acima do normal 0
Porta-Enxertos e Cultivares Introdução
O cultivo de uvas européias (Vitis vinifera) pressupõe o uso da enxertia, tendo em vista que a espécie é sensível à filoxera, praga amplamente difundida no mundo que ataca o sistema radicular da videira. No Brasil a filoxera foi detectada há mais de um século e o cultivo moderno de castas européias foi estabelecido com videiras enxertadas, a partir da década de 1920, no Rio Grande do Sul. Mais de uma dezena de diferentes porta-enxertos têm sido usados nas zonas de produção, sendo alguns tradicionais, como o Solferino, e outros de introdução mais recente, como o Paulsen 1103.
Com relação às cultivares, os dados oficiais revelam que são cultivadas mais de setenta castas de Vitis vinifera na região Sul do Brasil. Observa-se que, ao longo do tempo, tem havido a substituição. Na Serra Gaúcha o predomínio das tradicionais castas italianas deixou de existir com a introdução na década de 1970, de variedades francesas como Merlot e Cabernet Franc. A partir do início dos anos 80 ganharam espaço a Cabernet Sauvignon, Tannat, Gewürztraminer, Chardonnay, Flora, Pinotage, juntamente com várias outras viníferas importadas da França, da Alemanha, da Itália, dos Estados
Unidos e da África do Sul. Realmente um grande número de cultivares foi testado, nas instituições de pesquisa e nas propriedades da região da Serra e também da Campanha do Rio Grande do Sul. Mas a busca por novas alternativas ainda continua, especialmente visando a elaboração de vinhos varietais. Algumas cultivares portuguesas e de outras procedências têm sido importadas recentemente, constituindo-se na expectativa do momento. Esta análise sugere que ainda não há uma definição de cultivares para as condições temperadas do Brasil. Na verdade, entretanto, enquanto diversas opções testadas já foram descartadas por falta de adaptação ou porque não tiveram o desempenho enológico desejado, outras têm se firmado como boas alternativas.
Neste capítulo são descritos os principais porta-enxertos e cultivares de uvas finas para processamento utilizadas na vitivinicultura brasileira de clima temperado.
Porta-enxertos
A escolha do porta-enxerto deve ser feita considerando o destino da produção a fertilidade do solo, os problemas de doenças e pragas ocorrentes na região ou na área do vinhedo e o vigor da variedade copa. Em geral, para a produção de uvas viníferas deveriam ser preferidos os porta-enxertos de menor vigor, para privilegiar a qualidade da matéria-prima. Os principais porta-enxertos recomendados para o cultivo de viníferas nas regiões temperadas do Brasil são descritos a seguir:
1103 Paulsen - É um porta-enxerto do grupo berlandieri x rupestris. Teve grande difusão no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina nos últimos anos porque apresenta tolerância à fusariose, doença comum nas zonas vitícolas da Serra Gaúcha e do Vale do Rio do Peixe. É vigoroso, enraíza com facilidade e apresenta boa pega de enxertia. Tem demonstrado boa afinidade geral com as diversas cultivares. É o porta-enxerto mais propagado atualmente na região Sul do Brasil. Solferino - Foi introduzido e difundido no Rio Grande do Sul a partir da década de 1920 como 3309, um porta-enxerto do grupo V. riparia x V. rupestris. Mais tarde foi identificado como um V. berlandieri x V.riparia e, não tendo sido identificada a cultivar, passou a ser denominado Solferino. É conhecido pelos viticultores pelo nome "Branco Rasteiro" devido ao aspecto esbranquiçado da brotação e ao seu hábito de crescimento prostrado. Ainda é muito utilizado na viticultura do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Apresenta facilidade de enraizamento, boa pega de enxertia, vigor médio e boa afinidade geral com as copas, normalmente condicionando a boas produtividades.
SO4 - Este porta-enxerto do grupo berlandieri x riparia foi introduzido na década de 1970, sendo muito difundido no Rio Grande do Sul nos anos subseqüentes. Em geral confere desenvolvimento vigoroso e boas produtividades à maioria das copas. Atualmente é muito pouco propagado devido à alta sensibilidade à fusariose e a problemas de dessecamento do engaço, uma anomalia verificada em certos anos, devido a desequilíbrio nutricional envolvendo o balanço entre potássio, cálcio e magnésio. Estes problemas não têm sido constatados na região de Santana do Livramento, onde o solo é profundo e bem drenado. 420-A Mgt - É o menos vigoroso do grupo berlandieri x riparia, indicado para o cultivo de uvas finas para vinho. Confere vigor moderado à copa, favorecendo a obtenção de produções limitadas. Não tem sido muito usado porque apresenta alguma dificuldade de enraizamento e, também, de pega de enxertia. 101-14 Mgt - É o principal representante do grupo riparia x rupestris cultivado nos vinhedos sulinos. Já teve maior difusão na Serra Gaúcha, onde foi substituído pelo 1103 Paulsen nos últimos anos. É um porta-enxerto pouco vigoroso, que induz vigor e produção moderados, por isso indicado para a produção de uvas finas para vinho. Tem boa afinidade geral com as copas, apresenta boa capacidade de enraizamento e boa pega de enxertia.
Alguns outros porta-enxertos têm sido usados nas regiões temperadas para o cultivo de uvas finas para vinho. Entre eles podem ser citados Kober 5 B, 161-49 Couderc e Téléki 8 B, entre os berlandieri x riparia; 9 R e 110 R., do grupo berlandieri x rupestris; o 3309 Couderc, do grupo riparia x rupestris.
Uvas Finas para Processamento
Cabernet Franc
Cultivar francesa da região de Bordeaux, a 'Cabernet Franc' foi introduzida no Rio
Grande do Sul pela Estação Agronômica de Porto Alegre, por volta de 1900. Na década de 1920 já era cultivada comercialmente pelos Irmãos Maristas em Garibaldi. Sua grande difusão no Estado, entretanto, ocorreu nas décadas de 1970 e 1980, tornando-se a base dos vinhos finos tintos brasileiros nesse período. A partir daí, foi superada pelas cultivares 'Cabernet Sauvignon' e 'Merlot' nos novos plantios de uvas tintas finas. 'Cabernet Franc' adapta-se muito bem às condições da Serra Gaúcha, é medianamente vigorosa e bastante produtiva, proporcionando colheita de uvas de boa qualidade, atingindo facilmente 18ºBrix a 20ºBrix, em vinhedos bem conduzidos. Origina vinho com tipicidade, apropriado para ser consumido ainda jovem. Em anos menos chuvosos durante o período de maturação o vinho é mais encorpado e tem coloração mais intensa, apresentando considerável evolução qualitativa com alguns anos de envelhecimento. Na região do Vale do Loire, na França, é utilizada para a elaboração de vinhos rosados de alta qualidade.
Cabernet Sauvignon
É uma antiga cultivar da região de Bordeaux, França, hoje plantada com sucesso em muitos países vitícolas. Em 1913, já era cultivada experimentalmente pelo Instituto
Agronômico e Veterinário de Porto Alegre. As primeiras tentativas de sua difusão comercial no Rio Grande do Sul ocorreram nas décadas de 1930 e 1940. Entretanto, foi a partir do final da década de 1980, com o incremento da produção de vinhos varietais, que esta cultivar ganhou expressão no Estado. Vários clones procedentes da França, dos
Estados Unidos, da Itália e da África do Sul foram trazidos para a formação dos novos parreirais. Atualmente é a vinífera tinta mais importante do Estado. É uma cultivar muito vigorosa e medianamente produtiva. Em vinhedos bem conduzidos obtêm-se uvas aptas à elaboração de vinhos típicos, que podem evoluir em qualidade com alguns anos de envelhecimento. É bastante susceptível às doenças de lenho que, se não forem controladas convenientemente, reduzem a produtividade e causam morte precoce das plantas. O vinho de Cabernet Sauvignon' é mundialmente reputado pelo seu caráter varietal, com intensa coloração, riqueza em taninos e complexidade de aroma e buquê.
Evolui com o envelhecimento, atingindo sua máxima qualidade desde dois a três anos até cerca de vinte anos em determinadas safras do Médoc, por exemplo.
Chardonnay
Cultivar de origem francesa, possivelmente da Borgonha, a Chardonnay' foi introduzida em São Roque-SP em 1930 e no Rio Grande do Sul em 1948. Não houve difusão comercial desses materiais, que permaneceram nas dependências das Estações
Experimentais de São Roque e de Bento Gonçalves, respectivamente. A partir do final da década de 1970, por interesse do setor vitivinícola, esta casta foi trazida de procedências diversas e difundida na Serra Gaúcha, tanto pelos órgãos de pesquisa como pela iniciativa privada. É uma cultivar de brotação precoce, sujeita a prejuízos causados por geadas tardias. Adapta-se bem às condições da Serra Gaúcha, com vigor e produtividade médios, atingindo boa graduação de açúcar em anos favoráveis. É uma cultivar cujo vinho goza de renome internacional, especialmente pela qualidade dos produtos que origina na Borgonha, assim como, pelos famosos espumantes elaborados na região de Champagne, em corte com Pinot Noir'. No Brasil tem sido usada para a elaboração de vinho fino varietal e também para vinhos espumantes.
Flora
'Flora' é uma cultivar de Vitis vinifera, resultante do cruzamento 'Sémillon' x 'Gewurztraminer', selecionada pelo Prof. H. P. Olmo, da Universidade da Califórnia.
Foi trazida para o Rio Grande do Sul pela Estação Experimental de Caxias do Sul, em 1965. Destacou-se entre outras viníferas pelo comportamento produtivo e qualidade da uva obtidos nos experimentos conduzidos na Serra Gaúcha. Entretanto, os primeiros plantios comerciais desta cultivar no Estado foram feitos em Santana do Livramento, pela empresa National Distillers, em meados da década de 1970, onde também apresentou bom desempenho. Ganhou espaço nos vinhedos da Serra Gaúcha a partir de 1990. 'Flora' é bastante resistente às podridões do cacho, porém, é sensível à antracnose. Apresenta elevado potencial glucométrico e acidez equilibrada. Tem sido usada para a elaboração de vinho branco varietal e também para espumantes, originando produtos de qualidade, com aroma e buquê característicos.
Gewürztraminer
Referências indicam a 'Gewürztraminer' como uma mutação somática da 'Traminer
Blanc', uma cultivar provavelmente originária do Tirol Italiano. Foi levada para a Alemanha no século XVI, onde teria sido denominada 'Traminer Rother' (Traminer
Rosa'). Na Alemanha, na região do Palatinado, duas formas rosadas foram distinguidas pela seleção: a 'Savagnin Rose', não aromática, e a 'Gewürztraminer', aromática. Foi introduzida no Rio Grande do Sul pela Estação Experimental de Bento Gonçalves, em 1948, procedente da França. Entretanto, só foi difundida comercialmente no Estado a partir do final da década de 1970, sendo cultivada na Serra Gaúcha e em Santana do Livramento. É uma cultivar de difícil cultivo por causa da alta susceptibilidade ao declínio e morte de plantas e à podridão cinzenta da uva, causada por Botritys cinerea. Além disso, é uma cultivar de baixa produtividade. O conjunto destes fatores, após um período inicial de euforia, determinou a redução da área plantada com esta cultivar no Rio Grande do Sul. O vinho de 'Gewürztraminer' é reconhecido internacionalmente pela fineza e intensidade de aroma e sabor. É um dos principais varietais produzidos na região da Alsácia, na França.
Malvasia Bianca
A 'Malvasia Bianca' foi introduzida no Rio Grande do Sul pela Estação Experimental de Caxias do Sul, em 1970, procedente da Universidade da Califórnia. Avaliada pela pesquisa, demonstrou bom desempenho produtivo na Serra Gaúcha, surgindo como uma alternativa de uva aromática para a região. A partir de unidades de observação instaladas no campo de testes da Cooperativa Vinícola Aurora Ltda. e em propriedades de viticultores, começou a ser plantada comercialmente em meados da década de 1980. Origina vinho acentuadamente moscatel que pode ser comercializado como varietal, ser usado como fonte de aroma em cortes com outros vinhos ou servir como base para espumantes. Tem sido bastante usada para a elaboração de vinho moscatel espumante.
Merlot
Pode ser considerada como uma cultivar originária do Médoc, França, onde já era cultivada em 1850. Daí expandiu-se para outras regiões da França e para muitos outros países vitícolas, tornando-se uma cultivar cosmopolita. Os registros da Estação Experimental de Caxias do Sul informam que na década de 1920 a 'Merlot' já era cultivada no município por viticultores pioneiros no plantio de castas finas. Foi uma das cultivares básicas para a Companhia Vinícola Riograndense firmar o conceito dos seus vinhos finos varietais em meados do século passado. Tornou-se, a partir da década de 1970, uma das principais viníferas tintas do Rio Grande do Sul. Nos últimos anos cresceu em conceito, sendo, juntamente com a 'Cabernet Sauvignon', das viníferas tintas mais plantadas no mundo. É uma cultivar muito bem adaptada às condições do sul do Brasil, sendo cultivada também em Santa Catarina. Proporciona colheitas abundantes de uvas que podem atingir 20°Brix, porém, é bastante susceptível ao míldio. Origina vinho de alta qualidade, consagrado como varietal e também muito usado em cortes com vinhos de 'Cabernet Sauvignon', 'Cabernet Franc' e de outras castas de renome.
Moscato Branco
Apesar do nome 'Moscato Italiano', ainda não há uma definição da identidade desta cultivar com nenhuma das várias cultivares de uvas aromáticas descritas na ampelografia italiana. Em 1931, esta cultivar já fazia parte do campo de matrizes da

Estação Experimental de Caxias do Sul para a distribuição de material propagativo aos viticultores. É uma cultivar muito bem adaptada às condições do sul do Brasil, sendo cultivada também em Santa Catarina. É resistente à antracnose, porém, bastante susceptível ao apodrecimento da uva. Apresenta alta fertilidade, o que leva, muitas vezes, os agricultores a exagerarem na carga, prejudicando a qualidade. Nestes casos, a uva não atinge a maturação, sendo colhida com baixo teor de açúcar e acidez excessivamente elevada. Além disso, os vinhedos com sobrecarga têm apresentado problemas de declínio e morte precoce de plantas. Entretanto, em vinhedos bem conduzidos, em anos favoráveis, proporciona colheitas abundantes, de uvas de ótima qualidade. Origina vinho acentuadamente moscatel, usado principalmente em cortes, como fonte de aroma para outros vinhos; também é empregada para a elaboração de vinho moscatel espumante. Em pequena escala, é comercializada como uva de mesa.
Tem apresentado bom comportamento no nordeste do Brasil, na região do submédio São Francisco.
Pinotage
Pinotage' é resultante do cruzamento Pinot Noir' x Cinsaut', realizado na África do
Sul pelo Prof. Peroldt, em 1922. Ela só foi propagada para testes em áreas comercias em 1952, e em 1959 foi consagrada ganhando o concurso de vinhos jovens da cidade do
Cabo. O nome Pinotage' é uma combinação dos nomes Pinot' com Hermitage', sendo esta uma denominação usada para a Cinsaut na África do Sul. Foi trazida para o Brasil em 1979, pela Maison Forestier, sendo cultivada experimentalmente nos vinhedos da empresa, em Garibaldi. A partir de 1990 começou a ser plantada comercialmente na Serra Gaúcha. É produtiva, resistente a podridões do cacho e apresenta ótimo potencial glucométrico, atingindo, normalmente, 20ºBrix a 22ºBrix, com uma acidez total ao redor de 110 mEq/L. Origina vinho frutado, apto a ser consumido jovem.
Prosecco
Estudos ampelográficos, realizados a partir de 1979, mostram que a cultivar encontrada nos vinhedos de Bento Gonçalves, com o nome de 'Biancheta Bonoriva', é, na realidade, a 'Prosecco'. Não há registros sobre sua difusão, mas, segundo informações dos viticultores, ela é plantada há muitos anos neste município. Mais recentemente, no final da década de 1970, Ítalo Zanella, empresário e viticultor de Farroupilha, importou mudas de 'Prosecco' da Itália para plantio em sua propriedade. Este material serviu de base para novos plantios na região a partir de 1980. É uma cultivar do norte da Itália, onde é utilizada para a elaboração de conceituado vinho espumante. Apresenta bom desempenho agronômico na Serra Gaúcha, porém, em virtude da precocidade de brotação, pode sofrer danos causados por geadas tardias em áreas susceptíveis. A exemplo do que ocorre na Itália, também aqui origina espumantes de boa qualidade.
Riesling Itálico
A 'Riesling Itálico' é uma cultivar do norte da Itália, onde é cultivada principalmente em Veneza, Pavia, Udine, Treviso e Bolzano. Foi trazida para o Rio Grande do Sul pela Estação Agronômica de Porto Alegre em 1900. A Companhia Vinícola Riograndense foi pioneira na elaboração de vinho varietal desta cultivar no Estado e estimulou sua difusão na Serra Gaúcha. A partir de 1973, houve grande incremento na área cultivada, tornando-se uma das principais uvas finas brancas da região. É uma cultivar de médio vigor, fértil e produtiva, muito bem adaptada ao ambiente da Serra Gaúcha. Em anos favoráveis, proporciona colheitas abundantes, de uvas que chegam a 20°Brix na plena maturação. Entretanto, em anos mais chuvosos, o viticultor muitas vezes se vê forçado a antecipar a colheita devido à incidência de podridões do cacho. O vinho de 'Riesling Itálico' é fino, com aroma sutil e típico, comercializado como vinho fino de mesa varietal e, também, utilizado na elaboração de espumantes bem conceituados.
Sémillon
Sauternes, na França, é o berço da 'Sémillon'. É a principal cultivar branca da região de Bordeaux, onde é utilizada principalmente para a elaboração de famosos vinhos licorosos naturais, como os das denominações Sauternes, Barsac e Montbazillac. Foi trazida para a Serra Gaúcha pela Estação Experimental de Caxias do Sul em 1921, procedente dos vinhedos Vila Cordélia, de São Paulo. Relatos desta instituição indicavam a 'Sémillon como uma vinífera promissora para a região ainda na década de 1930, quando já era cultivada pelos Irmãos Maristas em Garibaldi. A grande difusão desta cultivar na região, entretanto, ocorreu a partir do início da década de 1970, com grande participação da Estação Experimental de Caxias do Sul. O volume de uvas vinificadas de 'Sémillon chegou a superar 7,3 milhões de kg no ano de 1985. Daí em diante, a produção declinou em conseqüência da política de preços mínimos que favoreceu outras cultivares. É uma cultivar de vigor médio, produtiva e muito bem adaptada às condições da Serra Gaúcha. Aqui, origina vinho neutro, normalmente utilizado em cortes com outros vinhos finos, sendo também usado como varietal.
Syrah
'Syrah' é uma das mais antigas castas cultivadas. Algumas referências sugerem que seria originária de Schiraz, na Pérsia, outras, que seria nativa da Vila de Siracusa, na Sicília. Independentemente de sua origem, 'Syrah' é cultivada na França há muito tempo, principalmente em Côtes-du-Rhône, Isere e Drôme. Da França, expandiu-se por muitos países, sendo hoje uma das cultivares tintas mais plantadas no mundo. Chegou ao Rio Grande do Sul em 1921, procedente dos vinhedos Vila Cordélia, de São Paulo. Até 1970, não logrou espaço nos vinhedos comerciais do Estado. Desde então, entretanto, acompanhando a história de outras viníferas finas francesas, começou a ser plantada comercialmente em Santana do Livramento e na Serra Gaúcha, a partir de mudas importadas por vinícolas destas regiões. É uma casta muito vigorosa e produtiva, características que, aliadas a sua alta sensibilidade a podridões do cacho, a tornam de difícil cultivo nas condições ambientais da Serra Gaúcha. Todavia, nas condições semi- áridas do nordeste, tem mostrado ótima performance na região do submédio São Francisco. O vinho de 'Syrah' é característico pelo seu aroma e buquê. No Rio Grande do Sul é chamada 'Petite Syrah', nome que a distingue da 'Calitor', aqui conhecida como 'Syrah'; 'Schiraz', nos Estados Unidos e na Austrália; 'Hermitage', também na Austrália;
'Balsamina', na Argentina.
Tannat
A 'Tannat' é originária da região de Madiran, no sul França, onde está sua maior área de cultivo. Também é importante no Uruguai, onde é a principal vinífera tinta cultivada. Foi introduzida no Rio Grande do Sul pela Estação Experimental de Caxias do Sul, em
1947, procedente da Argentina. Novas introduções foram feitas por essa mesma instituição em 1971 e 1977, com materiais vindos da Califórnia e da França, respectivamente. Destacou-se nos experimentos, passando a ser avaliada em unidades de observação instaladas em propriedades de viticultores no início da década de 1980.
No mesmo período, foi plantada em Santana do Livramento pela empresa National Distillers. A partir de 1987 começou a ser difundida comercialmente na Serra Gaúcha. É uma cultivar de médio vigor e produtiva; apresenta bom potencial glicométrico e comporta-se bem em relação às doenças fúngicas. O vinho de 'Tannat' é rico em cor e em extrato, servindo para corrigir as deficiências destas características em outros vinhos de vinífera. Também tem sido comercializado como vinho varietal. É um vinho bastante adstringente e, portanto, necessita de envelhecimento.
Trebbiano
Cultivar italiana da região de Toscana, a 'Trebbiano' tem grande difusão no mundo vitícola. É bastante cultivada na Itália, onde origina vinhos brancos secos e participa da composição do Chianti. É extensamente cultivada na França para a elaboração de vinhos para a destilação em Cognac e em Armagnac, além de participar da composição de vinhos de várias denominações de origem. Também está presente nos vinhedos da Bulgária, Grécia, Austrália, África do Sul, Estados Unidos, México, Argentina e Uruguai. Faz parte da história do cultivo de viníferas no Rio Grande do Sul, tendo sido uma das primeiras castas desse grupo a serem cultivadas no Estado. Já na década de 1930 era a vinífera mais propagada na Serra Gaúcha, destacando-se pela sua adaptação e produtividade. Representou, até 1973, mais de 50% da uva vinífera branca produzida na região da Serra. Também é cultivada na região da fronteira, em Santana do
Livramento, e no Vale do Rio do Peixe, em Santa Catarina. No Rio Grande do Sul, é utilizada para a elaboração de vinho varietal, normalmente comercializado com os nomes de 'Ugni Blanc' ou 'Saint Émillion', para a produção de espumantes e para cortes com outros vinhos finos de mesa. Como sinonímias usuais podem ser citados os nomes
'Trebbiano Toscano', 'Ugni Blanc' e 'Saint Émillion'.
Outras
Além das cultivares referidas, várias outras são cultivadas em maior ou menor escala nas diferentes regiões temperadas do Brasil. Dentre elas pode-se citar Barbera, Bonarda, Gamay Noir, Gamay St. Romain, Malvasia Amarela, Malvasia di Candia, Malvasia
Verde, Peverella, Pinot Noir, Sauvignon Blanc, Sylvaner e Zinfandel, entre as mais antigas. Em cultivo mais recente são encontradas, entre outras, Alicante Bouschet,
Ancellota, Aragonês, Carmenère, Castelão, Moscato Giallo, Tempranillo e Touriga Nacional.
Obtenção e Preparo da Muda
As mudas de videiras européias (Vitis vinifera) podem ser adquiridas em viveiristas ou preparadas na propriedade pelo processo de enxertia.
Aquisição da muda pronta
É imprescindível que se adquira as mudas de viveirista credenciado e regularmente fiscalizado pela Secretaria da Agricultura, onde deve-se ter a segurança da identidade do porta-enxerto e da cultivar enxertada e da sanidade das mudas. A obtenção de mudas sem estes cuidados pode comprometer a viabilidade econômica do empreendimento, pela introdução na propriedade de focos de doenças e pragas de difícil controle. As mudas adquiridas devem ser de raiz nua e bem lavadas de forma que se possa observar a presença de pragas como a "pérola-da-terra" e outros sintomas como engrossamento, nódulos, escurecimento e necroses causados por patógenos de solo. As mudas devem ter o sistema radicular bem formado, no mínimo, com três raízes principais e comprimento acima de 20 cm, com o calo do enxerto formado em toda circunferência da enxertia, sem fendas ou engrossamento excessivo. Além disso, deve-se ter a segurança de que as mudas se originaram de material propagativo certificado ou fiscalizado, sem a presença de viroses e outras doenças não possíveis de constatar-se no momento da aquisição das mudas.
Formação da muda na propriedade
Mudas de Vitis vinifera (uvas européias), obrigatoriamente devem ser formadas por enxertia, pois estas cultivares são muito suscetíveis ao ataque da filoxera, pulgão que ataca o sistema radicular da videira. A utilização de porta-enxertos, além do controle da filoxera, tem a vantagem de propiciar maior produtividade e qualidade da uva, maior tolerância a doenças de solo e melhor adaptação aos diferentes tipos de solo.
Material de propagação
O material de propagação para o preparo das mudas (estaca do porta-enxerto e gema da produtora) deve ser obtido em órgãos oficiais ou viveiristas credenciados. Outra opção e, neste caso, somente para material da produtora, é a obtenção do material em vinhedos comerciais que tenham sido formados com mudas de procedência conhecida onde deve-se proceder a seleção das plantas para a retirada do material.
No caso do produtor optar em fazer a seleção das plantas de cultivares produtoras para a retirada de garfos (gemas) para enxertia, ele deve escolher vinhedos adultos, com idade mínima de quatro anos, de preferência acima de 8 anos e que tenha sido formado com material de boa procedência em relação a sanidade e identidade varietal. Na seleção deve-se marcar as plantas com bom vigor, produtivas e boa maturação da uva e, sem qualquer tipo de sintoma que possa ser causado por doenças ou pragas. A observação das plantas deve ser feita em diversas épocas do ano, visto que os sintomas da maioria das doenças se expressam melhor em determinados estádios do ciclo vegetativo. As épocas mais aconselhadas para observar as plantas são: a) na primavera, quando os ramos alcançam em torno do 50 cm, verificar se as folhas apresentam sintomas de deformações, amarelamentos e manchas cloróticas de contorno variado e nos ramos se há anomalias como bifurcações, entrenós curtos, achatamentos e nós duplos; b) na fase de maturação da uva, antes da colheita, verificar se as plantas apresentam cachos com falhas ou mal formados, maturação irregular (presença no mesmo cacho de uvas maduras e verdes), e também, se àquelas plantas que embora tenham boa produção apresentam maturação atrasada ou incompleta; c) no fim do ciclo vegetativo, antes da queda das folhas, observar se as folhas apresentam enrolamento com aspecto rugoso e coreáceo, avermelhamento nas cultivares de uva preta ou rosa e amarelamento pálido nas cultivares de uva branca; d) no período de dormência, época que a planta está sem as folhas, antes da poda, verificar nos ramos se há presença de achatamento, nós duplos (gemas opostas), bifurcações, entrenós curtos, engrossamento nos entrenós, amadurecimento irregular da casca e morte de ramos.
No caso de porta-enxertos é difícil selecionar plantas sadias na propriedade, pois mesmo infectadas, as plantas não mostram sintomas de muitas doenças importantes. Dessa forma recomenda-se obter as estacas ou matrizes de porta-enxerto de fonte segura que tenham material certificado ou fiscalizado. Não utilizar para propagação, estacas retiradas de rebrotes do porta-enxerto que, eventualmente, ocorrem de plantas enxertadas em vinhedos comerciais em plena produção.
Coleta e conservação do material propagativo
A coleta do material propagativo do porta-enxerto (estacas) e da produtora (gemas), deve ser feita no inverno, quando a planta está em dormência (sem folhas) e com os ramos bem lignificados (amadurecidos). Somente devem ser aproveitados os ramos que vegetaram na última estação (ramo do ano) e que nasceram de ramos do ano anterior, ou seja, ramos de dois anos. Recomenda-se que a coleta do material seja feita o mais próximo possível da época da sua utilização (plantio ou da enxertia).
Quando for necessária a conservação do material, antes do plantio ou da enxertia, deve ser feito, de preferência, em câmara fria. Caso a câmara fria não dispor de controle de umidade, os feixes devem ser cobertos com papel jornal úmido e envolvidos em plástico bem vedado, para evitar que o material propagativo se desidrate. Não dispondo de câmara fria, conservar em local fresco (porão) sob areia ou serragem úmida. Quando for estacas (40-45 cm) a conservação pode ser feita em feixes, em pé, com a base das estacas enterrada (10-20 cm) em areia com bastante umidade e em local bem sombreado e fresco, onde pode permanecer por até duas ou três semanas. Estes cuidados são importantes, pois se os ramos da videira perderem água equivalente a 20% do seu peso, podem se tornar inviáveis para o plantio ou enxertia. O ideal é que todo o material, antes de ser conservado (armazenado), seja hidratado por 24 horas (imersão ou com a base na água). Quando as estacas de porta-enxertos destinadas ao plantio forem retiradas da câmara fria ou de outro local de conservação, devem serem colocadas na água por dois ou três dias, antes do plantio. No caso de material de produtoras destinado a fornecer gemas para enxertia é suficiente uma hidratação de 24 horas antes da enxertia.
Preparo das estacas
As estacas para plantio do porta-enxerto, devem ter o comprimento, em torno, de 45 cm, correspondendo, aproximadamente a 4-6 gemas e com um diâmetro de 7-12 m. O corte na extremidade inferior da estaca (base) deve ser horizontal, logo abaixo de uma gema (0,5 cm). Na extremidade superior, o corte deve ser inclinado (bisel) de 3 a 5 cm acima da gema.
Formação da muda
Mudas de cultivares viníferas devem ser obtidas através do processo de enxertia, preparadas diretamente no local de implantação do vinhedo ou em viveiro para posterior transplante. O preparo da muda em viveiro possibilita, numa pequena área, fazer grande número de mudas, além de facilitar os tratamentos fitossanitários, adubação, irrigação, cobertura plástica do solo etc. Além disso as mudas podem ser selecionadas antes de ir para o local definitivo, facilitando a padronização das plantas no vinhedo. Em contrapartida, a muda feita no local definitivo tem como vantagem o maior desenvolvimento inicial da planta, especialmente, nos primeiros dois anos, visto que, a muda não sofre o traumatismo do processo de transplante.
Escolha da área e preparo do solo para viveiro
O viveiro deve estar distanciado pelo menos 50 m de vinhedos comerciais. Escolher um solo com predominância para o tipo arenoso, profundo e bem drenado, de preferência que não tenha sido cultivado com videiras nos últimos anos. Deve estar livre de fungos, bactérias e nematoides que afetam a videira e sobrevivem no solo e, principalmente, da praga "pérola da terra", que ataca as raízes da videira e de inúmeras outras plantas cultivadas. Retirar amostras para analise do solo, com bastante antecedência e fazer a correção do pH e de adubação, conforme a recomendação. O solo tem que ficar bem preparado (solto), de modo a facilitar o aprofundamento das raízes e o desenvolvimento da muda.
Plantio das estacas
O plantio das estacas deve ser feito no período de julho/agosto. Quando a muda é preparada em viveiro o plantio das estacas do porta-enxerto pode ser feito em valas com profundidade de 30 cm a 40 cm e largura de 30cm. As estacas são enterradas à profundidade de 2/3 do seu comprimento e espaçadas de 5 cm a 10cm. Pode-se colocar na vala duas fileiras de estacas distanciadas 20 cm a 30 cm uma da outra e, entre as valas, deixar uma distância de 1 m. Outra alternativa é preparar canteiros com 15-20 cm de altura e com 60 cm de largura e distante 50 cm um do outro, cobrindo-os com plástico preto. O plantio deve ser feito em duas fileiras para facilitar a operação de enxertia pelos dois lados do canteiro. O plantio pode ser feito furando o plástico com a própria estaca ou, o que é mais aconselhável, perfurar o plástico antes de colocar a estaca. Deve-se ter o cuidado de manter o solo com umidade suficiente para o plantio antes de cobrir o canteiro com plástico. Após o plantio das estacas é importante irrigar em cima do plástico fazendo a água penetrar pelos furos de modo a compactar o solo junto a estaca. Em caso de estiagem o viveiro deve ser irrigado periodicamente.
Quando a muda é preparada no local definitivo, o plantio também é feito no período de julho/agosto. Normalmente o porta-enxerto é plantado em covas, sempre colocando- se duas estacas em cada cova e enterrando 2/3 do seu comprimento. Outra alternativa é plantar estaca já enraizada (barbado) e, neste caso, vai um barbado por cova. No caso do plantio de estacas e as duas enraizaram, elimina-se a mais fraca ou transplanta-se para as covas onde não ocorreu pegamento. Uma boa medida para repor as falhas, é plantar uma quantidade de estacas em sacos plásticos e transplantá-las para as covas que não houve pegamento, ainda no mesmo ano, durante o mês de outubro.
Enxertia de garfagem no campo

No Brasil, esta é a prática mais utilizada e a quase totalidade das mudas são preparadas no local definitivo. Como já foi mencionado, a enxertia é feita um ano após o plantio das estacas do porta-enxerto (enxertia de inverno). Em regiões sujeitas à ocorrência de geadas tardias, a enxertia deve ser feita na última quinzena de agosto. O tipo de enxertia feita no campo é a garfagem simples, executada do seguinte modo: inicialmente, faz-se uma limpeza em torno do porta-enxerto para facilitar a operação de enxertia. A seguir elimina-se a copa a uma altura de 10 cm a 15 cm acima do solo, ficando, assim, um pequeno caule ou cepa. Após, com o canivete de enxertia, é feita uma fenda de 2 cm a 4 cm, na qual será introduzido o garfo da videira que se deseja enxertar. Para o preparo do garfo (enxerto), toma-se uma parte do ramo (bacelo) com duas gemas, de preferência com diâmetro igual ao do porta-enxerto. Com canivete bem afiado são realizados cortes rápidos e firmes em ambos os lados, de maneira que o garfo fique em forma de cunha, com largura maior para o lado que fica a gema basal (Figura 1). O comprimento da cunha deverá ser semelhante ao da profundidade da fenda feita no porta-enxerto.

Fig. 1. Preparo do garfo, com a largura maior para o lado da gema. (Foto: G. Kuhn)
É importante que o garfo, assim preparado, seja imediatamente encaixado na fenda do porta-enxerto, de tal maneira que as regiões da casca do porta-enxerto e do garfo (enxerto) fiquem em contato direto. Quando o diâmetro do porta-enxerto e do garfo for diferente, é fundamental que, no lado em que se situa a gema basal do garfo, ocorra o contato direto da casca das duas partes - enxerto/porta-enxerto (Figura 2). A seguir, enrola-se firmemente toda a região da enxertia com fita plástica, com cuidado para não deslocar o enxerto. Além da fita plástica pode ser usado ráfia ou vime, embora a fita plástica seja mais indicada por vedar bem os cortes da enxertia, evitando a entrada de água e terra (Figura 3). Quando a muda é preparada no local definitivo, crava-se uma estaca ou taquara (tutor) junto ao enxerto, de modo a conduzi-lo até o arame do sistema de sustentação (latada, espaldeira, etc.).
Fig. 2. União da enxertia, mostrando o contato da casta da copa com o porta-enxerto. (Foto: G. Barros )

Fig. 3. Amarrio do enxerto com fita plástica. (Foto: G. Barros)
Para favorecer a soldadura, logo após a enxertia, deve-se cobrir totalmente o enxerto com terra solta, areia ou serragem úmida, não em excesso, para não causar a compactação quando secar (Figura 4).
Fig. 4. Cobertura do enxerto com terra. (Foto: G. Kuhn)
Após a pega da enxertia, deve-se acompanhar o desenvolvimento da muda mantendo os brotos do enxerto e eliminando-se os brotos que se originam do porta-enxerto, tomando-se o cuidado para não deixar a região do calo do enxerto sem a proteção da terra.
Quando o enxerto estiver com uma brotação de, aproximadamente, 50 cm, deve ser observado se houve afrancamento, ou seja, se ocorreu emissão de raízes a partir do garfo (enxerto). Em caso positivo, as raízes devem ser cortadas com tesoura ou canivete. Nesta época, também deve ser observado se está havendo estrangulamento na região da enxertia, cortando a fita plástica se necessário. Realizadas estas operações, novamente, protege-se a região da enxertia até que se inicie o amadurecimento do ramo. A partir deste estádio pode-se eliminar a proteção do enxerto e soltar a fita plástica.
Deve-se fazer o controle da formiga cortadeira e realizar os tratamentos fitossanitários, especialmente, do início da brotação em setembro até dezembro, quando doenças como antracnose e míldio ocorrem com maior freqüência. As operações de manejo do enxerto, tais como eliminação da brotação do porta-enxerto, desafrancamento e eliminação da proteção que cobre o enxerto, devem ser efetuadas, preferencialmente, em dias nublados. Ocorrendo a brotação das duas gemas do enxerto e quando estas alcançarem em torno de 1 m, elimina-se o broto mais fraco, amarrando o outro, freqüentemente, junto ao tutor, para evitar a sua quebra pelo vento.
Quando a enxertia é feita em viveiro, onde a distância entre as mudas é em torno de 10 cm, não há necessidade de tutora-las e sim fazer o desponte dos ramos, sempre que atingirem em torno de 60 cm, de modo a engrossar o ramo principal e facilitar os tratamentos fitossanitários. As demais operações são as mesmas já mencionadas quando se forma a muda no local definitivo. As mudas permanecem no viveiro até o inverno seguinte, quando serão arrancadas e replantadas no local onde vai ser implantado o vinhedo.
Enxertia verde
Esta modalidade de enxertia é efetuada durante o período vegetativo da videira sendo recomendada para a reposição de falhas da enxertia de inverno. Pode também ser empregada na renovação do vinhedo. A enxertia é feita por garfagem simples, nos meses de novembro e dezembro. Se feita mais tarde poderá ocorrer problema na maturação (lignificação) das brotações, principalmente, em localidades onde o outono é bastante frio.
Consiste dos seguintes procedimentos: selecionar dois brotos do porta-enxerto conduzindo-os junto ao tutor e eliminando as demais brotações. Quando os ramos do porta-enxerto atingirem em torno de 5 m de diâmetro e estiverem com boa consistência, verdes mas rígido, já poderão ser enxertados. A altura da enxertia é variável, dependendo do desenvolvimento do ramo, o qual deverá ser despontado a partir do quarto ou quinto entrenó, contados da extremidade para a base (Figura 5).

Fig. 5. Enxertia verde - desponte do porta-enxerto. (Foto: G. Kuhn)
Todas as gemas do porta-enxerto devem ser eliminadas, deixando as folhas. O garfo da produtora com uma ou duas gemas (Figura 6) deve ter o mesmo diâmetro do ramo do porta-enxerto para facilitar a enxertia e a soldadura do enxerto.

Fig. 6. Enxertia verde - diâmetro do garfo e do porta-enxerto devem ser semelhantes. (Foto: G. Barros)
A elaboração dos cortes é igual ao da enxertia de inverno já descrita. O enxerto deve ser amarrado com plástico fino (Figura 7) vedando totalmente a superfície, desde a região da enxertia até o ápice, ficando a descoberto apenas a(s) gema(s) do garfo (Figura 8). Após a enxertia, deve ser feito duas vistorias semanais eliminando-se os brotos que se originam do porta-enxerto. A brotação do enxerto deve ser amarrada freqüentemente para não quebrar com o vento. Também devem ser realizados os tratamentos fitossanitários, especialmente para o controle da antracnose e do míldio.
Cerca de dois meses após a enxertia, afrouxar o amarrio para evitar o estrangulamento, permanecendo o enxerto coberto com plástico. A retirada definitiva do plástico deve ocorrer, em torno, de somente 90 dias após a enxertia. Efetuar estas práticas, de preferência, em dias nublados ou em fim de tarde.
Fig. 7. Enxertia verde - amarrio com fita plástica fina. (Foto: G. Barros)
Fig. 8. Enxertia verde - cobertura de toda região enxertada, deixando gema de fora. (Foto: G. Barros)
Sistema de Condução
A videira, a não ser em casos especiais, não pode ser cultivada satisfatoriamente sem alguma forma de suporte. É uma planta que apresenta uma grande diversidade de arquitetura de seu dossel vegetativo e das partes perenes. A distribuição espacial desse dossel, do tronco e dos braços, juntamente com o sistema de sustentação, constituem o sistema de condução da videira.
Escolha do Sistema de Condução
Há vários fatores que influenciam a tomada de decisão para a escolha de um sistema de condução: a) o objetivo da produção (qualidade x quantidade); b) a variedade, especialmente no que se relaciona ao hábito de frutificação, que pode exigir poda em cordão esporonado ou mista, neste caso deixando varas e esporões; tamanho do cacho; vigor da planta, que pode requerer altura e/ou largura maiores para uma melhor exposição ao sol; c) as condições do solo e do clima; d) a topografia do terreno; e) o método de colheita, manual ou mecânico; f) o custo de instalação e de manutenção dos postes e fios; g) a conjuntura econômica/rentabilidade do viticultor; h) a tradição.
Há uma diversidade muito grande de sistemas de condução da videira utilizados nas diferentes regiões vitícolas do mundo. Para o Sistema de Produção de Uvas Viníferas para Processamento em Regiões de Clima Temperado, são abordados os sistemas de condução latada e espaldeira.
Latada
O sistema de condução latada é também chamado de pérgola. É o sistema mais utilizado na Serra Gaúcha, RS e no Vale do Rio do Peixe, SC. Na América do Sul tem alguma expressão na Argentina, Chile e Uruguai. Na Europa, aparece em determinadas regiões vitícolas, especialmente na Itália, com denominações e formas diferenciadas.
O dossel é horizontal e a poda é mista ou em cordão esporonado, conforme a variedade de videira. As varas são atadas horizontalmente aos fios do sistema de sustentação do vinhedo. As videiras são alinhadas em fileiras distanciadas geralmente de 2,0 a 3,0 m, sendo 2,50 m o mais usual. A distância entre plantas é de 1,50 a 2,0 m, conforme a variedade e o vigor da videira. A zona de produção da uva situa-se a aproximadamente 1,80 m do solo. A carga de gemas também é variável, sendo em geral de 100 mil a 140 mil gemas/ha.
Principais Vantagens
Proporciona o desenvolvimento de videiras vigorosas, que podem armazenar boas quantidades de material deRESERVA , como o amido;
Permite uma área do dossel extensa, com grande carga de gemas. Isto proporciona elevado número de cachos e alta produtividade;
Em função de sua produtividade, possui uma boa rentabilidade econômica especialmente em pequenas propriedades;
É de fácil adaptação à topografia de regiões montanhosas, como a Serra Gaúcha e o Vale do Rio do Peixe;
Facilita a locomoção dos viticultores, que pode ser feita em todas as direções.
Principais Desvantagens
Os custos de implantação e de manutenção do sistema de sustentação são elevados;
A posição do dossel e dos frutos situados horizontalmente acima do trabalhador causa transtornos à execução das práticas culturais;
A posição horizontal do dossel e o vigor excessivo das videiras podem causar sombreamento, afetar negativamente o microclima, a fertilidade das gemas e a qualidade da uva e do vinho;
O elevado índice de área foliar, se o dossel não for bem manejado, pode proporcionar maior umidade na região dos cachos e das folhas, o que favorece o aparecimento de doenças fúngicas;
O sistema de sustentação necessita ser sólido para suportar o peso do dossel e da produção e o impacto do vento; A área máxima recomendada de cada parcela de um vinhedo conduzido em latada é de 4 ha.
Manejo do Dossel Vegetativo
O manejo do dossel de um vinhedo conduzido em latada pode se tornar relativamente dispendioso se o número de varas e de esporões não for condizente com as características da cultivar, o vigor das plantas e a densidade de plantio. Nesse caso, há necessidade de realizar a poda verde, especialmente a desbrota, a desfolha e a desponta, a fim de que haja uma melhor distribuição espacial das folhas e uma maior captação da radiação solar.
Instalação do Sistema
O sistema de sustentação deve ser suficientemente resistente, durável e ter custos acessíveis de instalação e de manutenção ao empreendimento. O sistema de sustentação deve suportar o peso da uva, dos braços, dos ramos e folhas. Além disso, deve-se considerar o impacto de acidentes durante as operações no vinhedo e os efeitos de ventos e de chuvas muito intensas. Ele é formado por postes e fios que podem ter especificações variadas.
Postes
Os postes devem ter algumas características especiais para serem utilizados nos sistemas de sustentação. Eles devem ser a) resistentes, para suportar o peso do dossel vegetativo e da produção de uva; b) duráveis, de preferência durante todo o tempo de vida da planta; e c) enterrados a uma profundidade adequada para que não caiam sob o efeito de chuvas e de ventos intensos. Eles podem ser de madeira, metálicos, de pedra ou de concreto. Os de madeira são os mais usados, mas devem ter resistência aos fungos e insetos que atacam a madeira. Em geral utiliza-se o eucalipto, que tem fraca resistência natural mas pode tornar-se excelente quando tratado. Para isso, deve-se a) utilizar postes redondos; b) secá-los de 3 a 6 meses antes do tratamento; c) tirar a casca e fazer uma ponta em uma das extremidades; d) tratá-los com produto recomendado para sua conservação e que substitui a seiva, inicialmente fazendo-se vácuo e após, pressão. Os produtos usados são sais metálicos à base de cobre, de cromo e de arsênio (CCA), o que exige cuidado com seu manuseio. O creosoto é um outro produto que também apresenta uma eficácia muito boa. De qualquer forma, é importante que o viticultor tenha certeza que o tratamento foi bem realizado, a fim de evitar sérios transtornos operacionais e econômicos mais tarde. Isso pode ser feito cortando-se o poste a uns 20 cm da extremidade e verificar se no corte transversal há coloração cinza-esverdeada em toda sua extensão. Atualmente, pode-se adquirir postes tratados de empresas especializadas nesse trabalho, mas elas têm de ser idôneas.
Os postes de pedra e de concreto são muito resistentes, especialmente os de pedra.
Mas são pesados e difíceis de serem manipulados, são quebradiços e apresentam certa dificuldade para a instalação dos fios. Os postes metálicos são muito utilizados nos principais países vitivinícolas. Eles são facilmente colocados nos solos não pedregosos e permitem uma fixação rápida dos fios de sustentação da vegetação. São flexíveis, mas precisam ser firmemente inseridos no solo para evitar que se inclinem com a ação de ventos fortes. Sua longevidade depende do material de que são feitos e do material de revestimento. Em geral são galvanizados, o que aumenta sua longevidade e permite uma boa relação preço/longevidade. No sistema de condução latada, há os seguintes tipos de postes: cantoneiras, cabeceiras, laterais, internos e rabichos. As cantoneiras são postes reforçados, colocados nas quatro extremidades do vinhedo. Em geral, devem medir 3,0 m de comprimento e ter um diâmetro de 16 a 18 cm (Figura 1). Além dos postes, há os tutores.

Fig. 1. Sistema de condução da videira em latada, especificando postes e fios. Postes - a) cantoneira; b) lateral; c) interno; d) rabicho; Fios - e) cordão primário de cabeceira; f) cordão primário lateral; g) fio da produção; h) fio da vegetação; i) fio de sustentação da malha; j) fio rabicho. (Ilustração: A. Miele)

As cabeceiras são postes externos que limitam o início e o fim das fileiras. Os laterais, são igualmente postes externos mas colocados nas laterais do vinhedo. Ambos devem ser reforçados. Em princípio, são feitos com os mesmos materiais das cantoneiras e devem medir cerca de 2,50 m de comprimento e ter de 12 a 14 cm de diâmetro. O espaçamento entre as cabeceiras é determinado pela distância entre as fileiras e o dos laterais deve ser de 5,0 m no máximo. As cantoneiras, as cabeceiras e os laterais podem se colocados verticalmente ou oblíquos para fora do vinhedo, dependendo das condições de solo e do tipo de rabicho a ser utilizado.
Os postes internos devem medir 2,20 m de comprimento e ter um diâmetro de 7 a 10 cm. Eles são colocados no cruzamento dos fios da produção e os de sustentação da malha. Deve-se fazer uma canaleta na extremidade superior para apoiar o fio de sustentação da malha.
Os rabichos devem ser colocados oblíquos e externamente a 1,50 m das cantoneiras, das cabeceiras e dos laterais. Medem 1,20 m de comprimento e são feitos de pedra, concreto ou ferro, atados a esses postes com um cordão de três fios, o que permite manter o aramado esticado.
O material necessário para a formação de um vinhedo na forma de quadrado e conduzido em latada varia conforme as características do desenho idealizado. A seguir, enumeram-se os postes necessários para a formação de um hectare de vinhedo com as seguintes especificações: a) distância entre fileiras - 2,50 m; b) distância entre plantas -
1,50 m; c) distância entre os laterais -5,0 m; d) distância entre os postes internos - 5,0 m; e) um fio da produção e quatro fios da vegetação por fileira (Tabela 1).
Tabela 1. Especificações e número de postes para formar um hectare de vinhedo na forma de quadrado e conduzido em latada.
Tipo de poste Comprimento (m)
Diâmetro (cm) Número de peças

Fórmula para determinar o número de cabeceiras e de laterais necessários:
[(comprimento da latada ÷ espaçamento dos postes laterais) -1] x 2 + [(largura da latada ÷ espaçamento dos postes cabeceira) -1] x 2
Fórmula para determinar o número de postes internos:
[(comprimento da latada ÷ espaçamento dos postes laterais) -1] x [(largura da latada ÷ espaçamento dos postes cabeceira) -1]
Arames
Os cordões, fios e acessórios utilizados na formação de vinhedos devem ser especiais para a finalidade desejada. São produtos com galvanização pesada, o que implica numa maior vida útil do aramado devido à maior proteção contra a ferrugem e à maior resistência mecânica. Além disso, apresentam menor coeficiente de alongamento, isto é, aumentam pouco seu comprimento quando a temperatura se eleva ou são tracionados pelo peso dos frutos e da vegetação.
O aramado é formado por cordões de cabeceira e cordões laterais e por fios da produção, da folhagem e dos rabichos (das cantoneiras, das cabeceiras e dos laterais).
Os cordões de cabeceira são dois, interligando as cantoneiras de duas extremidades do vinhedo e os postes de cabeceira situados entre eles. Os cordões laterais também são dois, colocados perpendicularmente aos cordões de cabeceira e interligando as cantoneiras de duas cabeceiras do vinhedo e unindo os postes laterais. Ambos geralmente são formados por sete fios enrolados helicoidalmente e revestidos por uma camada de alumínio pesada.
Os fios de sustentação da malha são colocados perpendicularmente às fileiras das plantas e paralelamente aos cordões de cabeceira. Eles unem os postes laterais de ambos os lados do vinhedo, passando pelos postes internos. São formados por três fios, com um diâmetro total de 4,0 m.
Os fios da produção unem os postes das duas cabeceiras do vinhedo e têm a finalidade de sustentar a cabeça da videira, quando ela é podada em poda mista, ou os cordões, quando a poda é em cordão esporonado. Utilizam-se fios ovalados 15 x 17
(2,40 m x 3,0 m). Os fios da vegetação unem os dois cordões de cabeceira e são paralelos aos fios da produção. Utilizam-se fios de 2,10 m de diâmetro. Tanto os fios da produção como os fios da vegetação passam por cima dos fios de sustentação. Geralmente colocam-se quatro fios da vegetação para cada fio da produção, dois de cada lado e distanciados cerca de 50 cm um do outro, dependendo da distância entre as fileiras.
Os postes de cabeceira e laterais são amarrados aos rabichos correspondentes através de fios. Para as cantoneiras, utilizam-se dois cordões com três fios cada e para as cabeceiras e os laterais, um cordão com três fios. O cordão deve ter cerca de 4,0 m de diâmetro.
As características dos diferentes tipos de fios que podem ser utilizados no sistema de sustentação de um vinhedo conduzido em latada são descritas na Tabela 2. Além da cordoalha e dos fios, são necessários acessórios para o acabamento do aramado.
Tabela 2. Características do aramado para a formação de um hectare de vinhedo conduzido em latada.
Fio Número de fios
Carga mínima de ruptura (kgf)
Diâmetro (m)
Quantidade (m)




Etapas para Formação do Vinhedo
O formato da latada deve ser, de preferência, quadrado ou retangular. Entretanto, pode ter outra forma, como a de um trapézio.
Marcação do Terreno e Colocação dos Postes
A formação do vinhedo inicia com a marcação das covas, que pode ser feita com um teodolito ou através do esquadrejamento. Estica-se uma linha de pedreiro ou um fio onde deve se localizar uma das cabeceiras ou das laterais. Na extremidade dessa linha, instala-se uma estaca onde deverá se situar uma das cantoneiras e, a partir dela, fazer um outro alinhamento de 20 m. Uma segunda estaca deve ser colocada a 15 m da estaca da cantoneira e no mesmo alinhamento do fio. A partir dela, estica-se uma linha ou fio de 25 m de comprimento, de modo que a extremidade do alinhamento de 20 m coincida com o alinhamento de 25 m. Coloca-se, então, uma baliza sobre esta estaca e a estaca correspondente à cantoneira. Após, com uma terceira estaca faz-se o alinhamento desta com a cabeceira ou a lateral do vinhedo até completar o seu comprimento. Esse procedimento deve ser repetido na outra extremidade do alinhamento inicial. Ligam-se, então, as extremidades dos alinhamentos das cabeceiras ou dos laterais. No contorno, colocam-se estacas conforme os espaçamentos pré-deteminados para o vinhedo. A seguir, unem-se as estacas correspondentes da cabeceira e da lateral com um fio. A interseção desses alinhamentos corresponde à marcação dos postes internos.
A escavação pode ser feita com trator munido de broca e seu diâmetro deve ser de pelo menos 2,5 vezes o dos postes. Essas escavações são verticais para os postes das cabeceiras, dos laterais e dos internos e inclinadas de 60º para os rabichos. O preparo dos postes, como os entalhes, pode ser feito anteriormente à instalação da latada. Emprega-se, em geral, um molde para fazer a marcação dos entalhes dos postes e dos rabichos. Os entalhes dos postes de cabeceira devem ser feitos de preferência após sua instalação: deve-se fazer dois anelamentos rasos semicirculares a 50 cm da parte de cima do poste, um para cada rabicho, com uma distância de 5 cm um do outro.
Recomenda-se começar a instalação do vinhedo por um poste de cabeceira ou por um poste lateral vizinho ao cabeceira. Inicialmente, faz-se uma marca que identifica o comprimento do poste que ficará acima e abaixo do solo. Coloca-se o poste no buraco e alinha-se esta marcação rente à superfície do solo. Após, mede-se o comprimento vertical da parte superior do poste até a superfície do solo. Se a latada estiver em área plana, esticam-se duas linhas, uma na parte superior e a outra na metade do comprimento exposto, ligando os dois postes vizinhos às cantoneiras de cada cabeceira e de cada lateral. A instalação dos demais postes externos terá a inclinação e a altura dos postes onde essas linhas foram amarradas. Mas, se a latada for instalada em solo irregular, o que é o mais freqüente, a instalação dos postes externos deverá ser feita individualmente. Neste caso, usa-se molde de madeira ou de metal com as dimensões de comprimento do poste e altura vertical. Para evitar que a terra do fundo do buraco ceda e o poste afunde, coloca-se pedra ou terra batida. Colocado o poste, deve-se encher esse buraco com terra e compactá-la completamente.
Colocados todos os postes de cabeceira e os laterais, procede-se à instalação das cantoneiras. Faz-se um alinhamento da base da cantoneira com a base dos postes laterais e de cabeceira, cuja parte superior deve estar alinhada com a parte superior desses postes. Feito isso, compacta-se a terra.
A colocação dos postes internos pode ser feita antes ou depois da colocação do aramado. Se após, tem-se a vantagem de conhecer o ponto de apoio e de fixação de um poste interno através da interseção do fio da produção com o fio de sustentação da malha. Esse procedimento conduz a um alinhamento perfeito. Além disso, em solos irregulares a instalação do aramado antes da dos postes internos pode fazer com que o vinhedo não tenha sempre a mesma distância da malha até o solo. Os rabichos são instalados após os demais postes: para cada poste de cabeceira ou lateral há um rabicho; mas para as cantoneiras há dois, um para o cordão de cabeceira e, outro, para o cordão lateral.
Instalação do Aramado
Ao adquirir os fios, eles não devem ser armazenados próximos de adubos ou em locais excessivamente úmidos, pois isso pode comprometer sua qualidade. Para desenrolar os fios, deve-se usar um desenrolador de arame ou, na ausência deste, colocar três estacas inclinadas no interior do rolo.
Inicia-se a instalação do aramado pelos cordões de cabeceira ou laterais. A seguir, colocam-se sucessivamente o fio de sustentação da malha, o fio da produção e, finalmente, o fio da folhagem. Este fio é desenrolado numa cabeceira e finalizado na outra, tomando-se o cuidado de passá-lo sobre o fio de sustentação da malha. A seguir, ele é cortado e emendado. Faz-se um novo arremate com o fio da folhagem na outra cabeceira, tensionando-o com um alicate. Recomenda-se iniciar o tensionamento da malha pelo vão situado no meio da cabeceira e, a partir daí, proceder dessa forma alternadamente com o vizinho da esquerda e da direita.
Espaldeira
O sistema de condução espaldeira é um dos mais utilizados pelos viticultores nos principais países vitivinícolas. No Rio Grande do Sul, é adotado especialmente na
Campanha e na Serra do Sudeste e por algumas vinícolas da Serra Gaúcha. As videiras conduzidas em espaldeira tem dossel vertical e a poda é mista ou em cordão esporonado. As varas são atadas horizontalmente aos fios da produção do sistema de sustentação do vinhedo. Se necessário, os ramos são despontados. Normalmente, deixam-se duas varas/planta quando a poda é mista; em cordão esporonado, há dois cordões/planta. A distância entre as fileiras varia de 2,0 a 2,50 m, mas se a altura do dossel vegetativo for de 1,0 m a captação da radiação solar é maximizada com fileiras distanciadas de 1,0 m. A distância entre plantas é de 1,20 a 2,0 m, conforme a variedade e a fertilidade do solo. A zona de produção geralmente situa-se entre 1,0 e 1,20 m do solo. Deixam-se de 65 mil a 80 mil gemas/ha, dependendo principalmente da variedade. A altura do sistema de sustentação do solo até a parte superior é de 2,0 a 2,20 m (Figura 2).
Principais Vantagens
Adapta-se bem ao hábito vegetativo da maior parte das viníferas;
Os frutos situam-se numa área do dossel vegetativo e as extremidades dos ramos em outra: isso facilita as operações mecanizadas, como remoção de folhas, pulverizações dos cachos e desponta; Apresenta boa aeração;
Pode ser ampliado paulatinamente, pois a estrutura de cada fileira é independente;
O custo de implantação é menor que o do latada; É atrativo aos olhos, especialmente quando se faz a desponta.
Principais Desvantagens
Apresenta tendência ao sombreamento, portanto não é indicado para cultivares muito vigorosas ou para solos muito férteis;
A densidade de ramos geralmente é muito elevada; Se a distância das fileiras for maior que 3,0 m, a área de superfície do dossel vegetativo será pequena;
Como conseqüência do exposto no item c, é necessário compensar a perda exagerada da produtividade com elevada carga de gemas o que aumenta o sombreamento e diminui a qualidade da uva e do vinho.
Manejo do Dossel Vegetativo

Geralmente, são necessários de dois a três repasses durante o ciclo vegetativo para posicionar os ramos. Essa prática pode ser realizada colocando os ramos entre os fios e amarrando-os quando necessário. Mas, é bem mais rápido quando o sistema de sustentação possui fios móveis para o posicionamento dos ramos. Esses fios devem ser colocados paralelos ao 2º fio e são movimentados em direção aos ramos, apanhando-os e posicionando-os para cima. Portanto, não necessitam ser atados. O primeiro posicionamento dos ramos deve ser feito próximo à floração e o último, antes da mudança de cor da uva. A desponta deve ser feita deixando-se ramos com cerca de 1,30 m de comprimento, os últimos 30 cm dos ramos estendendo-se além do 4º fio.
Instalação do Sistema
As considerações gerais feitas sobre o material utilizado para a formação de um vinhedo conduzido em latada servem, também, para um conduzido em espaldeira.
Portanto, descrevem-se, a seguir, somente as especificações do material e os passos para a instalação do vinhedo.
Postes
A estrutura do sistema de sustentação da espaldeira é formada de postes de cabeceira e internos, rabichos, tutores e fios. Os postes de cabeceira devem ter 2,50 m de comprimento e de 12 a 14 cm de diâmetro e são colocados nas extremidades das fileiras; os postes internos, 2,20 m de comprimento e de 7 a 10 cm de diâmetro, colocados a uma distância máxima de 5,0 m um do outro.
Os rabichos medem 1,20 m de comprimento e são colocados em cada extremidade das fileiras da mesma forma que o foram para o sistema latada. Sua colocação pode ser externa ao sistema de sustentação, em posição oblíqua e afastando-se da cabeceira; ou internos, oblíquos e escorando as cabeceiras das fileiras.
O aramado é formado por três ou quatro fios. Neste caso, o 1° fio situa-se de 1,0 a 1,20 m do solo; o 2°, a 30 cm do primeiro; o 3°, a 35 cm do segundo; e o 4°, a 35 cm do terceiro. Para manter o dossel numa posição vertical pode-se usar um fio suplementar, móvel, paralelo ao 2° fio.
Similarmente ao sistema de condução latada, o material necessário para a formação de um vinhedo conduzido em espaldeira é variável conforme as características do desenho idealizado. A seguir, descrevem-se os postes necessários para a formação de um hectare de vinhedo no formato de quadrado possuindo as seguintes especificações:
a) distância entre fileiras - 2,0 m; b) distância entre plantas - 1,50 m; c) distância entre os postes internos - 5,0 m; d) há um fio da produção, três fios fixos da vegetação e um fio móvel de posicionamento do dossel (Tabela 3).
Tabela 3. Especificações e número de postes para formar um hectare de vinhedo conduzido em espaldeira.
Tipo de poste Comprimento (m) Diâmetro (cm) Número de peças Cabeceira 2,50 12 a 14 98

Fórmula para determinar o número de cabeceiras necessários: Número de fileiras x 2.
Fórmula para determinar o número de postes internos:
[(comprimento de cada fileira ÷ espaçamento dos postes internos) -1] x Número de fileiras
Arames
O aramado do sistema de condução espaldeira é bem mais simples que o do latada, pois consta de fios da produção, da vegetação e rabichos. Os fios da produção sustentam as cabeças das videiras, quando conduzidas em poda mista, ou os cordões, quando conduzidas em cordão esporonado. Os fios da vegetação são geralmente quatro, sendo três fixos e um móvel, este paralelo ao 2º fio. Tanto os fios da produção como os da vegetação, partem de um poste cabeceira, passam pelos postes internos e terminam no poste cabeceira da outra extremidade da fileira. Os fios rabichos sustentam as cabeceiras.
As características dos diferentes tipos de fios que podem ser utilizados no sistema de sustentação de um vinhedo conduzido em latada são descritas na Tabela 4.
Tabela 4. Características do aramado para a formação de um hectare de vinhedo conduzido em espaldeira.
Fio Número de fios
Carga mínima de ruptura (kgf)
Diâmetro (m)
Quantidade (m)
Fio da

Etapas para Formação do Vinhedo
A instalação de um vinhedo conduzido em espaldeira é mais simples, e mais barata, que a da latada. É conveniente que as fileiras não excedam 100 m de comprimento e que o espaçamento entre os postes internos seja, no máximo, de 5 m. A colocação das estacas em áreas planas deve ser feita da mesma forma que a instalação de uma latada. Em área com declives, recomenda-se colocar as fileiras em curvas de nível. A escavação dos pontos demarcados pelas estacas pode ser feito com broca de trator.
Os entalhes das cabeceiras são feitos de acordo com o número de fios a serem utilizados. Recomenda-se furar os postes internos para a passagem dos fios, o que assegura maior sustentação vertical e horizontal ao aramado. Os furos devem ter ½ polegada no mínimo, a fim de evitar acúmulo de umidade e corrosão dos fios. Os entalhes e as furações devem ser feitas de preferência antes da instalação dos postes.
A instalação das cabeceiras e dos rabichos é feita da mesma forma que a colocação das cabeceiras e dos laterais da latada.
Após a colocação dos postes, deve-se compactar a terra para evitar que caiam com as intempéries e o peso da vegetação e da produção. As espaldeiras construídas em curva de nível devem ter um comprimento menor que as de terreno plano. Além disso, os postes internos devem ser um pouco maiores para que a parte que fica em baixo da terra seja maior.

Fig. 2. Sistema de condução da videira em espaldeira e com poda mista: a) poste de cabeceira; b) poste interno; c) fio da produção; d) fios fixos da vegetação; e) fio móvel da vegetação. (Ilustração: A. Miele)
Poda
A poda compreende um conjunto de operações que se efetuam na planta e que consistem na supressão parcial do sistema vegetativo lenhoso (sarmentos, cordões e, excepcionalmente, tronco) ou herbáceo (brotos, inflorescências, cachos, bagas, folhas, gavinhas).
A videira, em seu meio natural, pode atingir grande desenvolvimento. Nessas condições, a produtividade não é constante, os cachos são pequenos e a uva é de baixa qualidade. Ao limitar o número e o comprimento dos sarmentos, a poda seca proporciona um balanço racional entre o vigor e a produção, regularizando a quantidade de uva produzida. A poda verde constitui-se num importante complemento da poda seca para melhorar as condições do dossel vegetativo do vinhedo e, conseqüentemente, da qualidade da uva.
Poda Seca
Os principais objetivos da poda seca são: a) propiciar que as videiras frutifiquem desde os primeiros anos de plantio; b) limitar o número de gemas para regularizar e harmonizar a produção e o vigor, de modo a não expor as videiras a excessos de produção que podem levá-las a períodos de baixa frutificação; c) melhorar a qualidade da uva, que pode ser comprometida por uma elevada produção; d) uniformizar a distribuição da seiva elaborada para os diferentes órgãos da videira; e) proporcionar à planta uma forma determinada que se mantenha por muito tempo e que facilite a execução dos tratos culturais.
Escolha do sistema de poda
A eleição de um sistema de poda depende da cultivar, das características do solo, da influência do clima e de aspectos sanitários.
Cultivar: em condições similares de clima e solo, as diversas cultivares apresentam desenvolvimento vegetativo diferenciado. Nas vigorosas deixa-se um maior número de gemas/vara.
O sistema de poda depende também da localização das gemas férteis ao longo do sarmento. Quando as gemas férteis estão situadas em sua base, normalmente faz-se a poda em cordão esporonado; as cultivares que apresentam gemas inférteis na base do sarmento exigem poda longa ou mista. O comprimento dos entrenós também deve ser considerado para a realização da poda.
Características do solo: o vigor da planta está relacionado com a fertilidade do solo. Videiras em solos de baixa fertilidade não são muito vigorosas e, por isso, normalmente adota-se a poda curta; solos férteis propiciam grande desenvolvimento às videiras, sendo então utilizada a poda longa.
Influência do clima: uma mesma cultivar, plantada em solos similares, comporta-se segundo as características climáticas do local. Em áreas sujeitas a geadas tardias, a videira deve ser conduzida mais alta. Em climas úmidos, as gemas da base do sarmento geralmente são inférteis. Climas secos proporcionam maior fertilidade das gemas da base do sarmento. É importante, ainda, considerar a predominância dos ventos.
Nas regiões onde a incidência direta do sol não é favorável à qualidade da uva, devese fazer a poda de forma que os cachos fiquem sombreados; nas regiões frias e úmidas, a poda deve facilitar a incidência dos raios solares nos cachos.
Aspectos sanitários: as partes da videira com umidade persistente e pouco arejadas propiciam o desenvolvimento de doenças fúngicas. Para evitar a proliferação de doenças nas videiras, deve-se eleger o sistema de poda que assegure o máximo de circulação de ar e penetração de luz.
Localização e tipos de gemas
Na videira não se distinguem gemas vegetativas e gemas frutíferas, como em muitas espécies, mas somente gemas mistas que originam brotos com inflorescências e folhas ou somente folhas. A gema da videira é composta, sendo a principal chamada de primária, que geralmente dá origem a um broto frutífero; as outras duas são chamadas de secundárias, que geralmente brotam quando ocorrer algum dano com a gema primária (geada, granizo, quebra pelo vento, dano nas gemas superiores), as quais dão origem a brotos que podem ser férteis ou não.
As gemas da videira se localizam nas axilas das folhas, na posição lateral do ramo, inseridas junto aos nós (Fig. 1).
Gemas prontas: formam-se na primavera-verão, cerca de uma dezena de dias antes das gemas francas. Assim que formadas podem dar origem a uma brotação chamada feminela ou neto (ramo antecipado), que segundo a cultivar pode ser estéril, pouco ou muito fértil. Localiza-se, também, na axila das folhas, ligeiramente descentralizada e ao lado da gema franca.
Gemas francas ou axilares: formam-se na base das gemas prontas, junto à inserção do pecíolo foliar e permanecem dormentes durante o ano de formação, mas sofrem uma série de transformações. A formação dos primórdios florais se completa somente na primavera seguinte. Durante a brotação e desenvolvimento dos ramos, as gemas francas não brotam porque são inibidas pela atividade dos ápices vegetativos (dominância apical) e das gemas prontas (inibição correlativa). Essas gemas podem produzir geralmente de um a três cachos, dependendo da cultivar.
Gemas basilares, da coroa ou casqueiras: são um conjunto de gemas não bem diferenciadas que se formam na base do ramo, junto à inserção do broto do ano com a madeira do ano anterior. Somente brotam quando se fizer poda curta, aplicação de regulador de crescimento ou ocorrer problemas com as gemas francas. Geralmente são inférteis na maioria das cultivares viníferas.
Gemas cegas: são as mais desenvolvidas das gemas basilares, sendo as primeiras gemas visíveis localizadas logo acima dessas.


Fig. 1. O sarmento da videira e suas partes (Segundo Chauvet & Raynier, 1984).
Princípios fundamentais da poda
Mesmo que os sistemas de poda sejam transmitidos durante gerações, de forma empírica ou intuitiva, é importante que o podador conheça as bases racionais nas quais se sustenta a difícil técnica de podar. Os princípios da poda são os seguintes:
A videira normalmente frutifica em ramos do ano que se desenvolvem de sarmentos do ano anterior.
O sarmento que proporcionou um broto frutífero não produz novamente, por isso deve ser substituído por outro que ainda não tenha produzido. A preocupação deve ser o presente (próxima safra), mas não se pode esquecer o futuro (safras subseqüentes).
A frutificação é em geral inversa ao vigor, pois a produção de uva reduz a capacidade da videira para a próxima safra ou safras. As videiras com altas produções apresentam menos vigor e terão menor produtividade no ano seguinte ou nos anos seguintes.
O vigor individual dos ramos de uma videira é inversamente proporcional ao seu número.
Quanto mais o ramo se aproximar da posição vertical, maior será o seu vigor. A brotação inicia pelas gemas das pontas das varas ou esporões (brotação mais precoce e mais vigorosa); as gemas da parte mediana e da base das varas brotam posteriormente e algumas delas, muitas vezes, nem brotam. A curvatura da vara, as amarrações e o uso de reguladores de crescimento alteram essa dominância. Uma videira só tem condições de nutrir e maturar de forma eficaz uma determinada quantidade de frutos. Os ramos mais afastados do tronco são, em igualdade de condições, os mais vigorosos. As gemas mais afastadas da base do ramo têm, em geral, maior fertilidade.
O tamanho e o peso dos cachos, nas mesmas condições de cultivar, solo, clima e poda, aumentam quando se faz desbaste de cachos após o pegamento do fruto.
Para continuar um braço, se elegerá o sarmento situado mais próximo da base.
Qualquer que seja o sistema de poda aplicado, o viticultor deverá vigiar para que a futura área foliar e a produção tenham as melhores condições de aeração, calor e luminosidade.
Informações adicionais aos princípios da poda
A dominância apical é variável em função da cultivar (as que possuem forte dominância apical devem ser podadas curtas), do vigor da videira (plantas fracas apresentam dominância apical mais marcada), do rigor do período de repouso (inverno deficiente a favorecem) e do tipo de sustentação (orientação dos ramos). A adequada nutrição de carboidratos, crescimento moderado do ramo e produtividade normal favorecem a maturação do ramo e propiciam a formação de gemas frutíferas. Os sarmentos maduros armazenam maior quantidade deRESERVAS  (amido e sacarose) que sarmentos parcialmente maduros.
O comprimento do entrenó está relacionado com o vigor da planta (velocidade de crescimento). Ramos formados no início do ciclo e com crescimento regular terão entrenós com comprimento normal, o que significa dizer boas condições para o desenvolvimento das gemas frutíferas e para a maturação; entrenós muito longos indicam excesso de vigor e de crescimento, induzindo a formação de sarmentos imaturos e deficiente desenvolvimento das gemas frutíferas; entrenós muito curtos ocorrem quando há nutrição deficiente, falta de água, pragas ou doenças.
Os ramos ladrões com crescimento normal podem ser utilizados como elementos da poda. Quando o desenvolvimento é rápido, com excessivo vigor, apresentam gemas pouco férteis ou geralmente estéreis.
O podador deve selecionar as varas e os esporões pela sua condição (vigor e sanidade) e, após, pela sua posição na planta.
Época da poda
A época depende de vários fatores, entre os quais a cultivar, tamanho do vinhedo, topografia do terreno (riscos de geadas tardias), disponibilidade de mão-de-obra qualificada, concorrência com outras atividades na propriedade, umidade do solo e objetivos da produção (indústria, mesa).
A poda é feita durante o período de repouso da videira, isto é, desde a queda das folhas até pouco antes do início da brotação. Nas regiões expostas a geadas tardias poda-se tarde, quando as gemas das extremidades dos sarmentos já estão brotadas; nos climas temperados, durante o inverno; e podam-se tarde as videiras vigorosas e cedo, as fracas. As podas excessivamente precoces ou demasiadamente tardias são debilitantes para a videira e retardam a brotação.
A poda tardia, geralmente apresenta as seguintes vantagens: a brotação tardia é mais uniforme; há menor incidência de antracnose e menor probabilidade de danos por geadas; propicia maior produtividade do vinhedo; e a temperatura é mais adequada para o desenvolvimento dos tecidos e órgãos da videira.
Elementos da poda
Os elementos da poda são o esporão e a vara. O esporão desempenha duas funções na poda, ou seja, frutificação e produção de sarmento para a futura poda. Quando adotada a poda mista, sua função principal é a produção de sarmentos. A função da vara é a frutificação. Nos sistemas que adotam a poda longa (somente varas), seleciona-se como vara a brotação do sarmento do ano anterior mais próxima da base.
Sistemas de poda
Há grande variabilidade de sistemas de poda, em função da cultivar, clima, solo e porta-enxerto. Mas, podem ser agrupados em poda curta (cordão esporonado), poda longa (vara) e mista (vara e esporão). A poda é considerada curta quando o esporão tem até três gemas francas (geralmente duas), longa quando as varas tem mais de quatro gemas (geralmente de seis a dez) e mista quando permanecem esporões e varas na mesma planta.
Em função do número de gemas deixadas na videira a poda pode ser rica, média ou pobre. Uma poda é considerada rica quando permanecem mais de 120 mil gemas por hectare e pobre, quando esta quantidade é de 50 mil a 60 mil gemas por hectare. Existe uma carga ótima para cada planta, dependendo das condições existentes. Se a quantidade de gemas for menor daquela que a planta exigir, os brotos serão muito vigorosos, haverá maior número de ladrões e, eventualmente, surgirão problemas com a floração; caso a quantidade de gemas for exagerada, resultará numa produção excessiva de frutos que debilitará a planta. O equilíbrio entre a parte vegetativa e a produtiva pode ser expresso pela relação peso fresco do fruto/peso da poda. Um vinhedo equilibrado apresenta valores entre 5 e 10.
Sendo a poda mista e o sistema de condução o latada, deixam-se de 5 a 6 varas (6 a 8 gemas por vara) e de 10 a 12 esporões (2 gemas por esporão) por planta; mas se o sistema for o espaldeira, deixam-se 2 varas, uma para cada lado do fio de sustentação da produção, e 3 ou 4 esporões por planta.
No caso de haver necessidade de renovação de parte da planta no sistema latada, deve-se deixar varas contendo um certo número de gemas, determinado principalmente pela posição do esporão que deu origem a essa vara em relação aos fios de sustentação da folhagem, que serão utilizadas para substituir as partes comprometidas (braços ou cordões) da videira.
Localização dos cortes de poda
Quando o corte for realizado no tronco ou nos braços da videira, geralmente ocorre a morte dos tecidos subjacentes à secção do corte se esses forem efetuados rasos. Por esses cortes se infiltra a água da chuva, que pode provocar a decomposição e a necrose do tecido caso não sejam adequadamente protegidos até que se forme a cicatriz que os isola dos agentes externos. É importante deixar um pouco de madeira, a qual contribuirá para melhorar a cicatrização.
Os cortes nas varas e esporões não devem deixar a medula exposta, pois pode ocorrer acúmulo de água da chuva e a entrada de insetos e fungos parasitas da videira. Geralmente poda-se logo acima da última gema que se quer deixar, a fim de que permaneça uma pequena porção da medula. O corte deve ser em bisel, com a parte mais comprida do lado da última gema.
Tipos de poda
Há quatro tipos de poda da videira: implantação, formação, frutificação e renovação, realizadas em função da idade da videira.
Poda de implantação: efetuada na muda, antes do plantio. Consiste no encurtamento das raízes que se quebraram durante o transporte e na poda do enxerto a duas ou três gemas. As mudas importadas e de alguns viveiristas nacionais apresentam o enxerto protegido por uma camada de cera e geralmente são plantadas sem podar a parte aérea. Poda de formação: tem por finalidade dar a forma adequada à planta, de acordo com o sistema de sustentação adotado. Desde o plantio da muda ou da enxertia é importante que ocorra um bom desenvolvimento da área foliar e, conseqüentemente, do sistema radicular. Por isso, toda a vegetação da planta deve ser mantida em boas condições.
A formação da planta deve ser bem planejada e posta em prática no início da brotação. Na Serra Gaúcha, adotam-se os seguintes procedimentos: o broto de maior vigor do enxerto ou da muda (Fig. 2A) é conduzido mediante sucessivas amarrações junto ao tutor (Fig. 2B); quando esse broto alcançar a estrutura da latada ou o primeiro fio da espaldeira, será despontado cerca de 10 cm abaixo desta (Fig. 2C), para eliminar a dominância apical e estimular a brotação e o desenvolvimento das feminelas; os brotos das últimas duas feminelas são conduzidos no arame, mediante amarrações no sentido da linha de plantio, um para cada lado (Fig. 2D). Esses brotos serão os futuros braços da videira. Caso eles tiverem o vigor suficiente, poderão ser novamente despontados. Nos sistemas em que se adotar a condução em um braço, o ramo principal não será despontado, devendo ser conduzido junto ao tutor e quando alcançar o primeiro fio da estrutura será desviado e conduzido no sentido desejado. O mesmo poderá ser despontado quando alcançar a videira seguinte.
A poda de formação consiste em podar os futuros braços das videiras deixando no máximo seis gemas (Fig. 2E). As mudas que não foram despontadas, mas que apresentam vigor suficiente, são podadas na altura da estrutura de sustentação. As mudas fracas devem ser podadas a duas gemas. É importante manter uniformidade no desenvolvimento das mudas, pois videiras com diferentes idades dificultam o manejo e os tratos culturais do vinhedo.
Normalmente, a poda de formação é concluída até o terceiro ano. A poda de formação adequada proporciona maior facilidade para a realização da poda de frutificação.

Fig. 2. Poda de formação: A - enxerto ou muda; B - condução da muda; C - desponta; D - condução das feminelas; E - poda seca. (Desenhos: Adriano Mazzarolo)
Poda de frutificação: A poda de frutificação, também chamada de poda de produção, tem por objetivo preparar a videira para a produção da próxima safra.
Deve ser feita através da eliminação de sarmentos mal localizados ou fracos e de ladrões, a fim de que permaneçam na planta somente as varas e/ou esporões desejados. A carga de gemas do vinhedo deve ser adequada à maximização da produtividade e da qualidade de uva, sem comprometer as produções dos anos seguintes.
Nas videiras espaçadas de 2,5 m x 1,5 m, conduzidas em latada e com poda mista, pode-se deixar, em cada braço, três varas com 6 a 7 gemas cada uma e até 6 esporões com duas gemas cada um (Fig. 3A). Isso resulta de 60 a 6 gemas/planta. As varas devem estar distanciadas entre si cerca de 50 cm. Portanto, nos 75 cm de cada braço permanecem duas varas num sentido e uma no sentido oposto. Os esporões devem ficar bem distribuídos ao longo de cada braço. As sucessivas podas de frutificação consistem em eliminar as varas que já produziram e substituí-las por outras originadas dos esporões (Fig. 3B). Das duas brotações dos esporões (Fig. 3C) seleciona-se, na próxima poda, a mais afastada do braço para ser a futura vara (Fig. 3D) e a mais basal para ser o esporão (Fig. 3E). Desta forma, a carga básica é de 6 varas e 12 esporões por videira.

Fig. 3. Poda de frutificação: A - planta antes da poda, mostrando os sarmentos originados dos esporões e varas deixados no ano anterior; B - planta mostrando as varas e os esporões deixados após a poda; C - brotação das duas gemas do esporão; D - detalhe indicando a posição dos cortes na poda mista de inverno; E - detalhe mostrando a vara e o esporão após a poda. (Desenhos: Adriano Mazzarolo)
Nas videiras conduzidas em espaldeira pode-se adotar a poda tipo Guyot (vara e esporão) seguindo, basicamente, o que foi descrito para a latada ou o cordão esporonado (somente esporões). Nesse caso, os esporões devem ficar distanciados cerca de 20 cm entre si.
Nas videiras conduzidas em Y, pode-se adotar a poda mista, conforme descrito para a latada, ou o cordão esporonado, sendo a vegetação distribuída nos dois planos de sustentação. Geralmente, as varas apresentam menor número de gemas do que no sistema latada.
Poda de renovação: a poda de renovação consiste em eliminar as partes da planta, principalmente braços e cordões, que se encontram com pouca vitalidade devido a acidentes climáticos, danos mecânicos, doenças ou pragas, e substituí- los por sarmentos mais jovens. É utilizada, também, para rebaixar partes da planta que se elevaram em demasia em relação ao aramado, bem como às partes que devido a sucessivas podas se distanciaram dos braços ou cordões. Para a renovação de toda a copa, utiliza-se a brotação de uma gema latente do tronco (ladrão) bem localizada e a partir dela se reconstitui a planta. Essa prática é pouco utilizada sendo preferível a substituição da videira.
Poda Verde
Denomina-se poda verde as operações efetuadas durante o período vegetativo da videira. Desde que efetuada com cautela e na época oportuna, poderá melhorar as condições do microclima dos vinhedos, possibilitando, com isso, a diminuição de doenças fúngicas, maior eficiência nos tratamentos fitossanitários e colheitas mais equilibradas. Entretanto, seus efeitos serão prejudiciais se realizada fora da época ou de forma abusiva, pois se estará reduzindo a capacidade fotossintética da videira.
O manejo do dossel vegetativo é efetuado com o objetivo de complementar a poda seca da videira e de melhorar o equilíbrio entre a vegetação e os órgãos de produção. No manejo do dossel, a poda verde é uma de suas principais atividades. Os objetivos gerais da poda verde na videira são: 1) direcionar o crescimento vegetativo para as partes que formarão o tronco e os braços; 2) diminuir os estragos causados pelo vento; e 3) abrir o dossel vegetativo de maneira a expor as folhas mais favoravelmente à luz e ao ar.
As principais modalidades de poda verde, realizada nas videiras destinadas à elaboração de vinhos finos, são a remoção de gemas, a desbrota, a desponta e a desfolha.
Remoção de gemas
Consiste na eliminação das gemas antes da brotação. Ela pode ser praticada tanto na poda de formação quanto na de frutificação. Na poda de formação são eliminadas as gemas que estão localizadas abaixo do fio de sustentação bem como as gemas localizadas no lado de baixo dos futuros cordões. A remoção de gemas da parte inferior do tronco de uma planta jovem é realizada com o intuito de concentrar o crescimento em um ou mais ramos situados na parte superior, os quais formarão os braços da videira.

Na poda de frutificação, principalmente nas cultivares que possuem entrenós curtos ou com vegetação muito fechada, pode-se podar as varas com maior número de gemas e após eliminar as excedentes, visando melhorar a distribuição da futura vegetação.